LAMENTAÇÕES PARLAMENTARES

Neste ano eleitoral já se ouve um novo gênero musical: o lamento parlamentar em tom de reeleição. É uma mistura de bolero com choro, entoado por deputados que, até ontem, se diziam imbatíveis e agora descobrem que voto não nasce em árvore — muito menos em emenda. O deputado em dificuldade muda de comportamento. Fica subitamente humilde, aprende o nome do porteiro, passa a chamar o eleitor de “meu amigo” e o prefeito de “irmão”. Antes só aparecia em inauguração com placa grande; agora aceita até descerrar faixa de obra inacabada, desde que renda uma foto. As redes sociais viram um verdadeiro álbum de figurinhas: o deputado de capacete, o deputado de bota, o deputado abraçando criança, o deputado comendo pastel na feira. Falta só a figurinha do “deputado arrependido”, mas essa ninguém tem coragem de lançar. Quando a reeleição fica ameaçada, surgem também os discursos filosóficos: “O povo é ingrato”, “fiz tanto e não reconhecem”, “a internet espalha mentira”. Nunca passa pela cabeça que talvez o problema seja o próprio mandato, esse mesmo que sumiu do mapa logo depois da posse. E aí começam as peregrinações. O deputado que nunca lembrava o caminho do interior agora sabe até onde a estrada vira lama. Bate em porta, promete mundos e fundos e, se puder, inclui até uma ponte sobre um rio que nem existe. No fundo, a dificuldade de se reeleger é apenas o espelho. Ele não mente: só devolve ao político aquilo que ele entregou — ou deixou de entregar. E como espelho não aceita emenda, o jeito é ensaiar mais um sorriso e seguir pedindo voto, como quem pede desculpa sem admitir a culpa.

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