Quando o calendário eleitoral se aproxima, começa a piscar em vermelho, o político brasileiro desenvolve um súbito e profundo apreço pela fé alheia. Descobre-se devoto, peregrino e quase beato. Passa a frequentar festas religiosas nos mais distantes municípios, sempre com um sorriso treinado, mãos postas e olhar voltado para o céu — ou para a lente do celular mais próximo. Nessas ocasiões, o santo vira cabo eleitoral, a procissão se transforma em palanque itinerante e a missa termina em sessão de fotos. O político faz questão de chegar cedo, cumprimentar todos, carregar andor, acender vela e repetir frases genéricas sobre “fé do povo” e “tradição que precisa ser preservada”. Não importa muito qual seja o padroeiro; o importante é estar presente, visível e bem enquadrado. Curiosamente, fora do período eleitoral, a fé popular segue seu curso sem tantas visitas ilustres. As festas continuam, os fiéis também, mas o político desaparece como milagre ao contrário. Some da quermesse, da novena e até do café comunitário. A devoção, ao que parece, tem prazo de validade. No fim das contas, não é exatamente fé o que move essas presenças repentinas, mas a certeza de que onde há multidão há voto em potencial. A religião, tão íntima e profunda para muitos, vira cenário conveniente para quem precisa parecer próximo, humano e piedoso — ainda que só até o próximo domingo de eleição.