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Pero Vaz de Caminha

TROCA DE PODER

Há um ritual silencioso que costuma acompanhar as trocas de poder. Os que deixam o comando até podem se despedir, mas alguns de seus familiares parecem nunca aceitar que o tempo mudou. Ainda que o sucessor seja um velho aliado, a comparação vira hábito, e a nostalgia, argumento. Pelos corredores públicos, multiplicam-se os resmungos discretos. Atrás dos biombos da inconformidade, nascem críticas sussurradas, quase sempre acompanhadas da certeza de que, no passado, tudo funcionava melhor. O novo gestor mal começa a caminhada e já precisa conviver com a sombra de quem insiste em governar pela memória. No fim, o poder muda de mãos, mas nem todos conseguem desapegar dele. E, às vezes, o cargo é deixado para trás; o sentimento de posse, esse continua circulando pelos corredores.

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Pero Vaz de Caminha

O QUE DIZEM AS CÂMERAS ?

Dizem os especialistas que a fotografia registra qualquer imagem desenhada pela luz. O retrato, mais exigente, escolhe uma pessoa e tenta revelar sua expressão, sua identidade, sua personalidade. Todo retrato é fotografia, mas nem toda fotografia é retrato. Ainda assim, há um detalhe que a técnica nunca conseguiu resolver: a sinceridade. Ela não  cabe na lente. Esconde-se atrás do sorriso ensaiado, do aperto de mão calculado, do abraço conveniente. A câmera registra o instante; a verdade, quase sempre, fica fora do enquadramento. Talvez por isso as fotografias de campanha eleitoral sejam tão intrigantes. Nelas, os retratos parecem falar, mas dizem apenas o que convém. Congelam promessas, fabricam proximidades e colecionam sorrisos que, muitas vezes, desaparecem antes mesmo de a tinta da urna secar. A luz faz seu trabalho com perfeição;

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Pero Vaz de Caminha

TENTATIVA DE DOMÍNIO

Há estórias que insistem em voltar. Mudam os personagens, trocam-se os cenários, mas o enredo permanece quase o mesmo. Nas eleições, reaparecem os que se apresentam como pastores dedicados, prometendo cuidar do rebanho. No entanto, basta um olhar mais atento para perceber que muitos não conduzem: controlam. A intromissão indevida na vontade das ovelhas veste o discurso da proteção, quando, na verdade, busca apenas a obediência. E, por trás da pele de pastor, nem sempre existe um guia. Às vezes, esconde-se um lobo, interessado menos no bem do rebanho do que no poder sobre ele. A história ensina. A estória se repete. E cabe às ovelhas distinguir a voz de quem conduz daquela de quem apenas aprende a imitar o chamado para dominar.

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Pero Vaz de Caminha

O AMOR PELO PODER É BEM MAIOR

Houve um tempo em que a poesia insistia em dizer que tudo valia por amor. Era a coragem de atravessar distâncias, enfrentar tempestades e desafiar o orgulho apenas para permanecer ao lado de quem fazia o coração bater mais forte. Hoje, a frase parece ter mudado de dono. Em muitos casos, tudo vale não para conquistar o amor, mas para conservar o poder. Esquecem-se os escrúpulos, a delicadeza, a verdade e até a compaixão. O sentimento cede lugar ao cálculo, e o afeto perde espaço para a conveniência. Talvez a maior pobreza do nosso tempo não seja a falta de amor, mas a inversão de seus valores. Quando o poder vale mais que o afeto, vence quem domina, mas todos perdem um pouco daquilo que nos torna verdadeiramente humanos.

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Pero Vaz de Caminha

A RODILHA E O POTE

“Quem não consegue carregar o pote não deve usar rodilha”, ensinam os mais experientes. O velho ditado lembra que não basta a vontade de caminhar; é preciso ter condições de sustentar o peso da jornada. Na disputa eleitoral, a lição parece ganhar novo sentido. Diante de uma corrida marcada pela desigualdade de recursos, estrutura e visibilidade, algumas candidaturas aos parlamentos já deixam transparecer sinais de desistência antes mesmo da reta final. Não por falta de sonhos ou convicções, mas porque a política, muitas vezes, exige mais do que coragem: cobra fôlego, organização e meios para seguir em frente. No fim, a rodilha continua firme sobre a cabeça de poucos, enquanto muitos percebem que o pote é pesado demais para quem foi chamado a disputar em condições tão desiguais.

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Pero Vaz de Caminha

PESO DA CARROÇA

Há frases que envelhecem mal. Outras, infelizmente, continuam esbanjando vitalidade. Uma delas sentencia, com ares de sabedoria de botequim: “Quem não bajula, puxa carroça“.  É o manual resumido da promoção social pelo elogio interesseiro, onde o mérito tira férias e o “puxasaquismo” assume o expediente. Curioso é que a máxima acaba prestando uma involuntária homenagem aos que seguem puxando suas carroças — não as de madeira, mas as da dignidade. Se para escapar da carroça é preciso curvar a espinha diante dos poderosos, então resta um brinde aos carroceiros. São muitos, é verdade, e talvez sejam justamente eles que ainda consigam caminhar de cabeça erguida. Parabéns, portanto, ao grande contingente dos “carroceiros”. Num mundo em que a bajulação virou atalho, ainda há quem prefira o peso da carroça ao peso

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

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