
A DISSIMULAÇÃO CONTINUA
Há cadeiras que nunca ficam vazias. Quando alguém se levanta, deixa nelas um pedaço da própria vontade. O sucessor chega com novas ideias, mas descobre logo que a maior resistência nem sempre vem dos adversários. Muitas vezes, vem de quem ocupava o lugar antes. No poder, é quase impossível ao substituído aceitar, com serenidade, as decisões do substituto. O discurso público costuma ser elegante: desejam sucesso, falam em continuidade, elogiam a democracia ou o espírito de equipe. Nos bastidores, porém, cada mudança parece uma crítica silenciosa ao passado. Talvez por isso alguns repitam, com um sorriso bem ensaiado, que as palavras foram feitas para encobrir os pensamentos. E, enquanto os discursos prometem harmonia, o silêncio revela que a disputa pela cadeira continua, apenas sem plateia.




