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Pero Vaz de Caminha

UM ABSURDO MISTURADO COM ABUSO

Há um ruído estranho no ar. Não vem das interferências atmosféricas nem do chiado dos transmissores antigos. Vem de dentro. Dos estúdios alugados, das grades vendidas em fatias, dos microfones transformados em balcões de negócios. A terceirização de horários em emissoras de rádio e televisão, prática que nasceu sob o argumento da sobrevivência financeira, acabou abrindo espaço para algo muito maior — e muito mais perigoso. Criaram-se verdadeiras escuderias de oportunistas. Grupos que compram horários como quem aluga um ponto comercial em avenida movimentada. Entram no ar revestidos de autoridade moral, falando em defesa da família, da ordem, da justiça e da sociedade. Mas, por trás do discurso inflamado e da trilha sonora dramática, muitas vezes se esconde um mecanismo perverso: o uso da comunicação como ferramenta de intimidação, chantagem

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Pero Vaz de Caminha

A HIPOCRISIA NA TV

Teria sido anunciado no passado pelo famoso bispo de Olinda-PE, Dom Hélder Câmara, que sempre foi conhecido por sua atuação incisiva na defesa dos direitos humanos e pelo combate à pobreza – “só entende de fome quem passou fome”. Sua reflexão mais famosa e documentada sobre o tema, critica também a omissão da sociedade. Como pode entender de pobreza o Luciano Huck, que nunca foi pobre e cria sonhos com grandes retornos financeiros como o Familhão, que já deve ter sido o Baú da Felicidade, e também tem seu programa televisivo patrocinado por bets, que nada mais são do que jogos em plataformas digitais de apostas.

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PONTE DO SAPUCAIA CAMINHA COMO A JUSTIÇA

Parodiando o caminho da justiça, o percurso da reparação da Ponte Sapucaia, em Bragança, no Pará, parece ter seguido todos os degraus do poder público brasileiro. Tudo começou na primeira instância, pelas mãos de um vereador bragantino, que levantou a voz em defesa da população cansada de esperar por providências. O clamor atravessou gabinetes, ganhou eco e subiu para a segunda instância, agora conduzido por um deputado estadual, que transformou a reclamação local em pauta regional. Mas como toda grande novela brasileira, o caso não parou por aí. O problema atravessou fronteiras políticas e chegou ao plano superior, com a participação de um deputado federal, levando a demanda aos corredores de Brasília, onde promessas costumam andar mais rápido que as obras. Por fim, numa espécie de recurso ao “Supremo” das

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Pero Vaz de Caminha

AUTOANÁLISE?

Houve um tempo em que ele caminhava pelos corredores do poder com a cabeça baixa e o peito estufado. Parecia contraditório, mas não era. Baixa a cabeça para os chefes, estufado diante dos colegas. Chamava-os de companheiros quando precisava de apoio, mas bastava o sino do castelo tocar para lembrar sua verdadeira vocação: servir. Os anos passaram. Os antigos senhores perderam o trono, alguns desapareceram da política, outros foram aposentados pelo voto — ou pela falta dele. O castelo esvaziou. As bandeiras murcharam. E ele, sem corte e sem plateia, ficou vagando pelos corredores da memória, tentando convencer a si mesmo de que ainda pertence à nobreza. Hoje, chama de “vassalos” aqueles que um dia estiveram ao seu lado. Usa a palavra como quem cospe ressentimento, talvez por não aceitar

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Pero Vaz de Caminha

CAI A CREDIBILIDADE

Há um peso silencioso quando o jornalismo troca a lucidez pelo acerto de contas. As derrotas do passado, naturais na arena das campanhas e das ideias, não deveriam sobreviver nas entrelinhas de quem escreve para o público. O ofício da palavra exige grandeza: informar sem rancor, analisar sem feridas abertas. Afinal, a credibilidade nasce justamente da capacidade de separar memórias pessoais da responsabilidade coletiva de comunicar.

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Pero Vaz de Caminha

MAIS DINHEIRO E POUCA TRANSPARÊNCIA

O plenário vazio dizia mais do que qualquer discurso. Cadeiras espalhadas, microfones mudos e a pressa silenciosa de quem prefere votar longe dos olhos do povo. Assim, a Câmara dos Deputados aprovou mais uma lei dos partidos — dessas que chegam embrulhadas em palavras bonitas, mas carregam velhos vícios por dentro. Do lado de fora, o país seguia trabalhando, pegando ônibus lotado, tentando fechar as contas do mês. Do lado de dentro, sem debate e sem comunidade, decidiram mexer justamente no período eleitoral, onde cada brecha pode virar caminho para mais dinheiro obscuro e menos transparência. No fim, ficou a sensação de sempre: quando a política perde a coragem de conversar com a sociedade, cresce a desconfiança de que alguém está ganhando no silêncio aquilo que não conseguiria explicar em

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

Joseph Pulitzer

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