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Pero Vaz de Caminha

NA CONQUISTA DA CADEIRA

Alguns analistas da política brasileira afirmam que raramente se viu um número tão grande de postulantes à Presidência da República com currículos e propostas considerados superficiais para ocupar o cargo mais importante da nação. Enquanto isso, o eleitor assiste ao desfile, tentando distinguir estadistas de aventureiros. A participação política cresceu como rabo de cavalo: comprida, vistosa e chamativa. Mas cabelo comprido não faz do cavalo um campeão. Da mesma forma, multiplicar candidaturas não garante líderes preparados. No fim, a democracia continua fazendo a mesma pergunta de sempre: entre tantos nomes, quem realmente está à altura da cadeira que pretende ocupar?

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Pero Vaz de Caminha

ENXAQUECA POLÍTICA

Há tempos a política brasileira convive com reviravoltas, mas a grande novidade da temporada parece ser a enxaqueca providencial. Surge na véspera da convenção, aperta justamente na hora do palanque e, por coincidência, desaparece quando os ventos mudam de direção. Nessas horas, volta à memória a frase do mineiro Magalhães Pinto: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito; olha de novo e ela já mudou.” Hoje, talvez fosse preciso apenas um pequeno adendo: às vezes, entre uma nuvem e outra, aparece uma dor de cabeça conveniente. E, como quase tudo na política, também ela passa… conforme a previsão do tempo eleitoral.

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PRÓPRIO REFLEXO

É comum ouvir o povo reclamar dos políticos, como se eles tivessem surgido de um lugar distante, sem qualquer ligação com quem os escolheu. Mas, na democracia, o voto funciona como um espelho: nele se reflete a consciência, a esperança, a indignação e, às vezes, até a omissão de uma sociedade. O bom ou o mau governante não aparece por acaso. Ele chega ao poder pelas mãos de quem acredita, confia ou simplesmente decide. Por isso, antes de apontar apenas para os representantes, talvez seja necessário olhar para os representados.William Shakespeare escreveu – “Não existe nada de bom ou mau, é o pensamento que o faz assim”. A frase lembra que nossa percepção molda os julgamentos, mas também que as escolhas nascem da forma como pensamos. Se queremos uma política

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‘O SORRISO DO LAGARTO’ NAS CONVENÇÕES

As fotografias das recentes convenções partidárias parecem ter sido cuidadosamente ensaiadas. Sorrisos largos, abraços coreografados, aplausos sincronizados e olhares que procuram transmitir confiança. Tudo muito limpo, muito iluminado, muito convincente. A política contemporânea, afinal, aprendeu a posar para as redes sociais antes mesmo de encarar a realidade. Mas há fotografias que contam mais pelo que escondem do que pelo que revelam. Atrás do enquadramento perfeito, permanecem as disputas silenciosas, os acordos de bastidores, as conveniências e as ambições que jamais caberiam em uma legenda otimista. O retrato oficial é apenas a superfície; a história verdadeira costuma caminhar pelos corredores, longe das câmeras. É difícil olhar essas imagens sem lembrar de O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro. No romance — e na marcante adaptação televisiva —, o sorriso do

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TODOS SOMOS PÚBLICOS

Diz o jornalista e palestrante de gestão de crises de reputação, Mário Rosa, no início do livro ‘Entre a glória e a vergonha’ – “A grande coisa dos tempos de hoje é que todos agora somos públicos, mesmo que não famosos. A pessoa comum acabou. Somos todos incomuns. Porque a nova esfera pública – que surgiu com as redes sociais, a internet e o aparato de câmeras, celulares e monitoramento perpétuo de nossas vidas – subverteu o conceito do que é ser um cidadão comum. A rigor, todos nos tornamos incomuns porque estamos expostos a tudo e a todos o tempo todo, mesmo no aconchego enganoso de nosso WhatsApp ou nas mensagens privadas de nosso computador. Privadas é?”

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Pero Vaz de Caminha

OLHANDO NO ESPELHO

Dizem que a política é feita para servir ao povo. Mas, em muitos corredores do poder, o espelho parece falar mais alto que a janela. Em vez de olhar para a sociedade, alguns olham apenas para si mesmos. Quando a eleição se aproxima, a maior preocupação deixa de ser o que foi construído e passa a ser como permanecer no cargo. A reeleição transforma-se em objetivo absoluto. Não apenas pelo prestígio ou pelo salário, mas também pelo receio de perder a proteção que o mandato oferece e, sem ela, enfrentar o alcance da Justiça. Assim, a campanha deixa de ser uma defesa de ideias e torna-se uma corrida pela própria sobrevivência política. O interesse coletivo perde espaço para a conveniência individual. E quem deveria representar o cidadão acaba representando, antes

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

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