
AMNÉSIA PARCIAL
E a história continua, quase sempre com os mesmos personagens, ainda que mudem os figurinos, os discursos e, principalmente, as justificativas. Na conquista do poder, há promessas, gestos de grandeza e palavras cuidadosamente escolhidas. Fala-se em princípios, em justiça, em compromisso com o povo. O poder, porém, tem uma curiosa capacidade de alterar a memória de quem o alcança. Aos poucos, aquilo que antes parecia inaceitável passa a ser apenas “necessário”. O que ontem provocava indignação hoje recebe uma explicação. E o que seria impensável acaba sendo tratado como rotina. É uma espécie de amnésia parcial: não se esquece de tudo, apenas daquilo que incomoda. Esquecem-se as antigas críticas, as promessas feitas, os limites que se jurava respeitar. A memória torna-se seletiva, conveniente, quase um departamento particular da consciência. Na




