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Pero Vaz de Caminha

AINDA EM USO

Houve uma época em que era comum ouvir, nos corredores da vida pública, que não se deveria brigar com quem usava saia, batina, toga ou manto. Não era exatamente uma questão de respeito à roupa, mas de prudência diante de quem a vestia. A saia representava certas majestades, a batina inspirava reverências, a toga lembrava que a lei também tinha seus sacerdotes e o manto, bem… o manto sempre pareceu esconder alguma coisa. Com o tempo, descobrimos que as vestimentas mudam, mas o velho conselho permanece: cuidado ao comprar briga com quem tem o poder de transformar uma simples discussão em cerimônia oficial. Talvez porque, na vida pública, mais importante que estar certo seja descobrir, antes de levantar a voz, quem está usando a roupa adequada para dar a última

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ELEIÇÃO PODE VIRAR COMPARAÇÃO

Uma eleição presidencial pode se transformar, silenciosamente, em quase um plebiscito. Não aquele plebiscito clássico, de apertar um botão entre o “sim” e o “não”, mas outro, mais incômodo, em que a pergunta não aparece escrita na cédula. A pergunta fica suspensa no ar: Quem fez? Quem não fez? Quem prometeu e entregou? Quem prometeu e esqueceu? Quem teve a oportunidade e não teve coragem? Quem encontrou obstáculos reais e quem os usou como desculpa? No fim, talvez a eleição seja menos uma escolha entre nomes e mais uma espécie de acerto de contas com a memória. Cada eleitor chega à urna carregando sua própria lista: o que viu, o que viveu, o que melhorou, o que piorou, o que ficou pelo caminho. E assim, sem que ninguém escreva “sim”

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Pero Vaz de Caminha

MERCENÁRIOS NA DISPUTA

Há disputas que, à primeira vista, parecem ser movidas por ideais, convicções e lealdades. Mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que, em algumas delas, existe uma figura antiga e recorrente na história: o mercenário. E quando uma disputa passa a depender de quem está disposto a lutar — ou apoiar — mediante pagamento, há sempre uma razão para preocupação. A história oferece exemplos suficientes para lembrar que alianças construídas sobre o interesse podem ser tão sólidas quanto o valor depositado na conta. Roma conheceu isso. Napoleão também. Impérios, governos e projetos de poder descobriram, em diferentes momentos, que aqueles que chegam atraídos pelo pagamento podem partir quando aparece uma oferta melhor. A lógica é simples, quase comercial: pagou, está ao seu lado. Não pagou, atrasou ou

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Pero Vaz de Caminha

QUEM APOIA QUEM?

Em Bragança, na Pérola do Caeté, o caminho eleitoral vai se desenhando pelas ruas, pelas conversas de esquina e, sobretudo, pelas declarações de apoio. Mas, neste percurso, nem sempre é fácil observar quem, de fato, apoia quem — e quem apenas faz questão de dizer que apoia. Na disputa por uma cadeira de deputado federal, há apoios anunciados aos quatro ventos, discursos de fidelidade e gestos que parecem multiplicar candidaturas. Há quem, em tom jocoso, brinque que apoia mais candidatos do que os votos que, de fato, teria condições de transferir. E assim segue a política bragantina: entre abraços, fotografias, conversas reservadas e declarações públicas, cada apoio ganha um significado próprio. No fim das contas, resta a pergunta que costuma acompanhar toda eleição: apoio declarado é compromisso de voto ou

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A EMENDA E O SONETO

Dois internautas conversavam sobre um assunto que, de tão antigo, parecia não ter idade: a imprensa e a maneira como as pessoas acreditavam nas notícias. — Houve um tempo — dizia um deles — em que praticamente só havia a imprensa. Jornal, rádio, televisão… Era dali que vinha a informação. E, quando uma notícia aparecia publicada, quem estava do outro lado tinha poucas possibilidades de contestá-la. Se estava no jornal, ganhava quase imediatamente o selo de verdade. O outro, mais otimista com os novos tempos, entrou na conversa: — Mas isso mudou. Com a internet, qualquer pessoa pode contestar, comparar informações, apresentar outro ponto de vista. A notícia deixou de ser uma via de mão única. O primeiro pensou por alguns segundos e respondeu: — A emenda ficou pior que

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ORIENTAÇÃO E VENDA

Há uma diferença enorme entre um líder religioso que, diante de uma eleição, orienta seus fiéis a conhecer propostas, refletir sobre os problemas da sociedade e exercer o voto com consciência, e aquele que transforma o púlpito em balcão de negócios. Uma coisa é dizer: “Informem-se. Leiam as propostas. Pensem no futuro da comunidade. Votem de acordo com sua consciência.” Outra, bem diferente, é apresentar o voto dos fiéis como se fosse propriedade particular, uma espécie de moeda que pode ser negociada nos bastidores. A igreja deveria ser lugar de consciência, não de comércio. O líder religioso pode ter suas convicções políticas e até manifestá-las, mas existe uma fronteira delicada quando a fé deixa de ser espaço de reflexão e passa a ser instrumento de pressão, troca ou negociação eleitoral.

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

Joseph Pulitzer

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