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Pero Vaz de Caminha

PENSANDO NA OUTRA

Mal terminou uma eleição e, nos bastidores, outra já começa a ser desenhada. As municipais de 2028 ainda parecem distantes, mas as conversas, os acenos e, principalmente, as promessas de apoio já começam a aparecer. Na política, o calendário oficial nem sempre acompanha o calendário das articulações. O apoio de hoje pode carregar a promessa de retribuição amanhã. Um gesto agora pode valer uma aliança daqui a dois anos. Pode parecer exagero dizer que, logo após o resultado desta eleição, já estarão em andamento as negociações para 2028. Mas quem acompanha a política sabe: enquanto o eleitor ainda comemora ou lamenta o resultado das urnas, nos bastidores muitos já começam a pensar na próxima disputa. A eleição termina. A política, não.

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Pero Vaz de Caminha

BONECOS E VENTRÍLOQUOS

A quem interessam os debates políticos nas TVs brasileiras? Talvez ao público, talvez às emissoras — certamente aos marqueteiros. Ali, candidatos cuidadosamente ensaiados entram em cena como atores de um espetáculo no qual até a dissimulação parece ter sido objeto de treinamento. Perguntas difíceis recebem respostas decoradas; quando não convém responder, muda-se o assunto com elegância e um sorriso. No fim, a televisão oferece a ilusão do confronto, enquanto a realidade permanece nos bastidores. São ventríloquos falando por bonecos — e nós, disciplinadamente, discutindo qual deles parece mais convincente.

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Pero Vaz de Caminha

AINDA EM USO

Houve uma época em que era comum ouvir, nos corredores da vida pública, que não se deveria brigar com quem usava saia, batina, toga ou manto. Não era exatamente uma questão de respeito à roupa, mas de prudência diante de quem a vestia. A saia representava certas majestades, a batina inspirava reverências, a toga lembrava que a lei também tinha seus sacerdotes e o manto, bem… o manto sempre pareceu esconder alguma coisa. Com o tempo, descobrimos que as vestimentas mudam, mas o velho conselho permanece: cuidado ao comprar briga com quem tem o poder de transformar uma simples discussão em cerimônia oficial. Talvez porque, na vida pública, mais importante que estar certo seja descobrir, antes de levantar a voz, quem está usando a roupa adequada para dar a última

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Pero Vaz de Caminha

ELEIÇÃO PODE VIRAR COMPARAÇÃO

Uma eleição presidencial pode se transformar, silenciosamente, em quase um plebiscito. Não aquele plebiscito clássico, de apertar um botão entre o “sim” e o “não”, mas outro, mais incômodo, em que a pergunta não aparece escrita na cédula. A pergunta fica suspensa no ar: Quem fez? Quem não fez? Quem prometeu e entregou? Quem prometeu e esqueceu? Quem teve a oportunidade e não teve coragem? Quem encontrou obstáculos reais e quem os usou como desculpa? No fim, talvez a eleição seja menos uma escolha entre nomes e mais uma espécie de acerto de contas com a memória. Cada eleitor chega à urna carregando sua própria lista: o que viu, o que viveu, o que melhorou, o que piorou, o que ficou pelo caminho. E assim, sem que ninguém escreva “sim”

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MERCENÁRIOS NA DISPUTA

Há disputas que, à primeira vista, parecem ser movidas por ideais, convicções e lealdades. Mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que, em algumas delas, existe uma figura antiga e recorrente na história: o mercenário. E quando uma disputa passa a depender de quem está disposto a lutar — ou apoiar — mediante pagamento, há sempre uma razão para preocupação. A história oferece exemplos suficientes para lembrar que alianças construídas sobre o interesse podem ser tão sólidas quanto o valor depositado na conta. Roma conheceu isso. Napoleão também. Impérios, governos e projetos de poder descobriram, em diferentes momentos, que aqueles que chegam atraídos pelo pagamento podem partir quando aparece uma oferta melhor. A lógica é simples, quase comercial: pagou, está ao seu lado. Não pagou, atrasou ou

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Pero Vaz de Caminha

QUEM APOIA QUEM?

Em Bragança, na Pérola do Caeté, o caminho eleitoral vai se desenhando pelas ruas, pelas conversas de esquina e, sobretudo, pelas declarações de apoio. Mas, neste percurso, nem sempre é fácil observar quem, de fato, apoia quem — e quem apenas faz questão de dizer que apoia. Na disputa por uma cadeira de deputado federal, há apoios anunciados aos quatro ventos, discursos de fidelidade e gestos que parecem multiplicar candidaturas. Há quem, em tom jocoso, brinque que apoia mais candidatos do que os votos que, de fato, teria condições de transferir. E assim segue a política bragantina: entre abraços, fotografias, conversas reservadas e declarações públicas, cada apoio ganha um significado próprio. No fim das contas, resta a pergunta que costuma acompanhar toda eleição: apoio declarado é compromisso de voto ou

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

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