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Pero Vaz de Caminha

O UNGIDO

Há histórias que parecem ter saído diretamente das páginas da mitologia grega. Uma delas é essa de que alguém seria “ungido” para assumir um cargo público brasileiro, como se uma divindade tivesse descido do Olimpo para escolher seu representante entre os mortais. No verdadeiro cristianismo, a unção não é um salvo-conduto para o poder, muito menos uma espécie de certificado divino de autoridade política. Jesus não ensinou que governantes deveriam ser escolhidos por uma casta de ungidos, nem que determinado candidato carregaria consigo uma espécie de mandato celestial. Por isso, quando a fé é usada para apresentar alguém como “o escolhido” para ocupar um cargo público, a cena parece menos bíblica e mais mitológica. Só falta o trovão no céu, a águia de Zeus e uma voz anunciando: “Este é

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Pero Vaz de Caminha

A AMPULHETA NA JUSTIÇA

Houve um tempo em que o Judiciário brasileiro, e especialmente o Supremo Tribunal Federal, demonstrava preocupação com os chamados recursos protelatórios. A crítica era justa: quando um processo é transformado em uma sucessão interminável de recursos, embargos e pedidos, a Justiça deixa de ser apenas lenta e passa a ser uma espécie de espera sem prazo para terminar. A lógica parecia simples: recurso existe para garantir direitos, corrigir erros e preservar o devido processo legal. Não deveria servir, porém, como instrumento para empurrar uma decisão para um futuro cada vez mais distante. O curioso é que, na vida real, o STF parece no momento conviver com dois relógios. Há o relógio que cobra rapidez de quem recorre. E há outro, bem mais silencioso, que permanece parado quando processos e investigações

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Pero Vaz de Caminha

A VERDADE TEM CURVAS

Os temporais artificiais são piores que os naturais. Os provocados nenhum serviço de meteorologia é capaz de prever. Os naturais como o próprio nome diz, eles passam. Para os artificiais o melhor remédio é deixar a caravana avançar enquanto os cães ladram. Para os naturais é melhor fazer como o bambu, não oferecer resistência, se abrigar e deixar passar. Para os que provocam temporais artificiais, a memória é o seu pior e mais agudo inimigo. A “verdade” tem curvas. Para um navegador da vida, a passagem livre através de turbulências representa um prêmio. O bom tempo é o normal, a turbulência é apenas uma crise temporária. No plano terreno somos predadores e presas. Somos caçadores e caças.

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Pero Vaz de Caminha

TODO MUNDO TEM UM POUCO

Para temperar o gosto amargo — e, por vezes, até o mau gosto — do momento que o STF atravessa, vale recorrer à velha sabedoria popular: de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Nos tempos atuais, porém, quando qualquer conversa de esquina rapidamente vira debate sobre Constituição, competência, liminar, recurso e decisão monocrática, talvez seja mais apropriado atualizar o ditado: de juiz e louco, todo mundo tem um pouco. Basta surgir uma decisão do Supremo para que, em poucos minutos, apareçam milhões de “especialistas” em Direito Constitucional. Cada qual com sua sentença pronta, sua interpretação definitiva e, não raro, a convicção de que estudou mais o processo do que quem passou anos na faculdade de Direito. É a democracia em sua versão mais espontânea: todos opinam, todos julgam

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Pero Vaz de Caminha

“APROVEITADORES” DA DEMOCRACIA

A democracia é uma casa aberta, onde todos deveriam entrar pela mesma porta. O problema é que alguns entram pela porta da frente, sorriem para as câmeras e, quando ninguém está olhando, tentam levar os móveis. Os aproveitadores da democracia são aqueles que defendem a liberdade quando ela lhes convém, mas querem silenciar o outro quando a opinião alheia incomoda. Falam em justiça, mas procuram privilégios; pregam igualdade, mas adoram uma exceção quando ela os beneficia. São especialistas em vestir o discurso da cidadania como quem veste uma fantasia: enquanto dura o espetáculo, parecem defensores do povo. Depois, quando as luzes se apagam, aparece o velho oportunismo de sempre. Talvez o maior perigo para a democracia não esteja apenas em quem deseja destruí-la, mas também em quem aprende a usá-la

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Pero Vaz de Caminha

A PROPAGANDA E A REALIDADE

Desde os primeiros dias da República, a chamada “elite brasileira” parece ter aprendido uma curiosa maneira de fazer política: apresentar velhas ideias com roupa nova e chamar isso de mudança. Trocam-se os discursos, os personagens e as promessas, mas, muitas vezes, permanece a mesma estrutura de poder. Um dos exemplos mais emblemáticos foi a eleição de Fernando Collor. Vendido como símbolo de renovação, modernidade e combate aos privilégios, Collor chegou ao poder cercado de expectativas. O país queria mudança, e ele parecia representar exatamente isso. Mas a história, como costuma fazer, tratou de separar a propaganda da realidade. O governo Collor terminou marcado por graves problemas econômicos e políticos, culminando no impeachment. A promessa de transformação revelou-se, para muitos brasileiros, apenas mais uma mudança de fachada. Talvez essa seja uma

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

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Joseph Pulitzer

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