GRATIDÃO
No dicionário, a palavra gratidão talvez estivesse melhor se viesse acompanhada de um aviso em letras miúdas: uso raro, quase em desuso na prática. Porque, fora das páginas bonitas e dos discursos emocionados, a gratidão anda sendo um artigo de luxo, desses que só aparecem em vitrines, nunca no dia a dia. Na vida real, o favor vira dívida, a ajuda vira moeda, e o gesto sincero vira investimento esperando juros altos. Poucos agradecem; muitos cobram. Quem ontem foi amparado hoje passa reto, como se a memória tivesse prazo de validade mais curto que promoção de supermercado. Talvez por isso a gratidão incomode. Ela não dá voto, não dá cargo, não rende curtida. Só revela caráter — e isso, convenhamos, anda sendo a coisa menos valorizada do mercado humano.