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Pero Vaz de Caminha

A PACIÊNCIA ELEITORAL

Há momentos em que a vontade de ser o maior acaba nos fazendo pequenos. Na ânsia de mostrar força, competência e capacidade, queremos dizer tudo, fazer tudo e provar tudo — de preferência, para ontem. A paciência parece um luxo, o silêncio passa a ser confundido com fraqueza e cada minuto precisa ser preenchido por uma demonstração de que somos capazes de realizar grandes coisas. Mas nem sempre é assim que as grandes coisas acontecem. Há objetivos que precisam de tempo, ideias que amadurecem no silêncio e caminhos que não se constroem correndo. A pressa pode até produzir movimento, mas movimento não é necessariamente avanço. Às vezes, correr demais é apenas uma maneira mais rápida de se afastar do destino. Dizem que a pressa é inimiga da perfeição. Talvez seja

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Pero Vaz de Caminha

EM NOME DE QUEM OU DE QUÊ?

Em nome de Deus já se fez muita patifaria. A frase, dita pelo ministro Gilmar Mendes durante uma discussão no plenário do Supremo Tribunal Federal, atravessa a sessão e parece ganhar vida própria. Não é apenas uma provocação de momento. É uma janela para a história — essa velha senhora que insiste em nos lembrar que a fé, quando colocada a serviço da disputa pelo poder, pode deixar de ser consolo para se transformar em justificativa. Ao longo dos séculos, homens ergueram espadas, atravessaram oceanos, conquistaram territórios e enfrentaram outros homens carregando estandartes religiosos. Muitas vezes, a linguagem de Deus serviu para dar aparência de missão ao que também era interesse, ambição ou domínio. É preciso separar, entretanto, a religião de seus usos políticos. A fé pertence ao universo íntimo

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Pero Vaz de Caminha

O PODER E A RELIGIÃO

Diz um internauta, numa dessas frases que parecem simples, mas carregam séculos de história: líder religioso não deveria se deixar enredar pelos fios do poder terreno e da política partidária. Se professa o cristianismo, talvez valha a pena olhar para os Evangelhos — e lembrar de Caifás. Caifás não era um personagem qualquer. Sumo sacerdote e uma das principais figuras do Sinédrio, estava no centro do poder religioso de seu tempo. Foi nesse ambiente, marcado também pelas delicadas relações com a autoridade romana, que o julgamento de Jesus tomou forma. Ao final, Jesus foi entregue às autoridades romanas e crucificado. A história, porém, não precisa ser repetida para continuar ensinando. Há sempre uma fronteira delicada entre a fé que orienta a consciência e o poder que disputa espaços, influência e

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Pero Vaz de Caminha

OS ‘JABUTIS’ DO SUDESTE BRASILEIRO

Há árvores que parecem produzir jabutis. Na política brasileira, porém, a velha máxima da plutocracia lembra que jabuti trepado em árvore não chegou ali sozinho: alguém o colocou — e alguém também pode tirá-lo. A elite do mercado financeiro do Sudeste, entre outras forças econômicas e políticas, teve papel importante no apoio ao golpe de 1964 e à ditadura que se seguiu. Em outros momentos, em contextos diferentes, ajudou a apostar em dois personagens que chegaram ao Palácio do Planalto prometendo soluções simples para problemas complexos. Jânio Quadros apareceu com a vassourinha, símbolo de uma faxina moral que varreria a corrupção. Fernando Collor, mais tarde, prometeu liquidar a inflação com a precisão de uma bala. Ambos chegaram à Presidência embalados por expectativas e alianças poderosas. E ambos, em momentos distintos,

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Pero Vaz de Caminha

O JOGO DUPLO

Em Bragança, na região nordestina do Pará, a política parece ter aprendido uma velha lição: há quem entre numa eleição não para ganhar, mas para não perder de jeito nenhum. Na articulação de consanguinidade fraterna, o anúncio oficial é de apoio a apenas uma candidatura ao Governo do Estado. Mas, nos bastidores, a história é outra: cada qual trabalha, sorrateiramente, para o seu candidato. É como jogar com duas cartas na manga e esperar o resultado da mesa. Se um vencer, comemora-se. Se o outro vencer, também. No fim das contas, pouco importa quem levar a faixa. A estratégia é simples: estar sempre do lado de quem ganhou — ou, pelo menos, poder dizer que estava. Em política, há quem dispute a eleição. E há quem dispute apenas o direito

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Pero Vaz de Caminha

BRASA PRA SARDINHA

Chega a época das eleições e, com ela, surge uma curiosa profissão temporária: o analista jurídico de ocasião. De repente, todo mundo entende de decisão judicial. Quem ontem mal sabia distinguir uma liminar de uma sentença agora discorre, com a segurança de um jurista de longa estrada, sobre competência, recursos, jurisprudência e até interpretação constitucional. Uns leem a decisão procurando razão. Outros, procurando munição. E há os que nem leem: apenas escolhem de que lado está a brasa e tratam de puxá-la para sua sardinha. O problema não é ter opinião. Opinião todos temos. O problema é transformar preferência política em argumento jurídico — e argumento jurídico em verdade absoluta. No calor da eleição, a toga vira palanque, a lei vira torcida e cada decisão passa a ter dois pesos:

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

Joseph Pulitzer

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