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Pero Vaz de Caminha

AMPLIAÇÃO DA LEI DE NEWTON

Newton, coitado, criou uma lei para explicar as forças da natureza, mas a vida tratou logo de ampliar o conceito: toda ação tem reação. E, às vezes, a reação vem com juros. No popular, é o velho “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Ou, para os mais cuidadosos com a própria vidraça: quem tem telhado de vidro não deveria sair por aí distribuindo pedras. Na vida cotidiana, a física costuma aparecer disfarçada de consequência. Você cutuca, alguém reage. Você provoca, alguém responde. Você espalha faísca, não pode depois reclamar do incêndio. Por isso, há sabedoria em não cutucar onça com vara curta. E, principalmente, em não se fazer de vítima depois de descobrir que a onça também tem memória. Afinal, Newton explicou a reação. A vida apenas acrescentou

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Pero Vaz de Caminha

DONOS DA MALANDRAGEM

Parodiando o saudoso Nelson Rodrigues, já em outro plano, talvez se pudesse dizer:  é melhor trair logo do que ser traído mais adiante. Na política, essa máxima sempre encontrou terreno fértil. Havia — e ainda há — figuras da politicagem que se julgavam donas da malandragem, especialistas no bote certeiro, daqueles que esperam pacientemente a distração do adversário para atacar. O curioso é que, nesse jogo de espertezas, quase ninguém se considera traidor. Todos se enxergam como estrategistas. E, quando a traição finalmente chega, vem acompanhada de uma desculpa elegante, um sorriso de canto de boca e a velha conversa de que “foi preciso agir”. No fim, como diria Nelson, a vida como ela é : quem passa o tempo preparando o bote pode acabar descobrindo que, na política, sempre

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Pero Vaz de Caminha

PRAÇA TEM DONO – O POVO

Estava muito certo o poeta baiano Castro Alves quando escreveu, em O Povo ao Poder, versos que atravessaram gerações e continuam surpreendentemente atuais: ‘A praça! A praça é do povo/Como o céu é do condor.’ Talvez Castro Alves nem imaginasse que, tantos anos depois, suas palavras ainda serviriam para lembrar uma verdade tão simples quanto importante:  o espaço público pertence ao povo. A praça não é apenas um lugar físico. É o ponto de encontro da comunidade. É onde as pessoas caminham, conversam, celebram, reivindicam, protestam, comemoram e, sobretudo, exercem sua cidadania. Quando uma praça é pública, ela não pertence a uma pessoa, a um grupo, a uma entidade ou a um governo. Ela pertence à coletividade. E aqui está uma diferença que não deveria jamais ser esquecida:  administrar não

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Pero Vaz de Caminha

BURACOS ALIMENTADOS

No folclore político, nunca falta um observador bem-humorado. Daqueles que falam com a segurança de quem conhece a cidade, a política e, principalmente, os buracos do caminho. Em Bragança, a Pérola do Caeté, surgiu uma dessas figuras com uma observação difícil de contestar: — Se asfalto fosse comida, com certeza o povo estaria numa fase boa de alimentação. E não é que a frase tem sustância? Por aqui, o asfalto aparece, desaparece, remenda, volta a aparecer… Parece até prato feito servido em ano eleitoral. O problema é que o povo não come asfalto. Come esperança, promessa e, quando dá, uma obra bem-feita. No fim, fica a pergunta: será que um dia a Pérola do Caeté terá uma dieta mais equilibrada, com menos asfalto de sobremesa e mais qualidade de vida

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Pero Vaz de Caminha

INOPERÂNCIA E A OPERÂNCIA FALSA

De repente, o político antes especializado em “vamos analisar”, transforma-se em homem de ação. Câmeras aparecem, capacetes são vestidos, máquinas são ligadas e inaugurações começam a brotar como cogumelos depois da chuva. O marqueteiro, especialista em milagres, entra em cena. Uma obra inacabada vira “projeto histórico”. Uma pintura de meio-fio ganha trilha sonora épica. E uma simples placa recém-instalada é filmada de tantos ângulos que parece a inauguração de uma metrópole. É a chamada falsa operância : não importa tanto fazer, mas parecer que está fazendo. E o eleitor, diante de tanta eficiência repentina, fica com uma dúvida: — Se trabalham tanto agora, onde estavam durante os anos anteriores?  Afinal para alguns políticos, a obra mais urgente não é a que beneficia a população. É a propaganda que precisa ficar

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Pero Vaz de Caminha

OPORTUNISMOS NA VIDA PÚBLICA

Na vida pública, há criaturas que não mudam de ideia; mudam de freguês. A convicção, para elas, é um paletó de aluguel: veste-se conforme a ocasião e devolve-se quando o interesse muda de endereço. Chamam isso de oportunismo inteligente. É possível chamar apenas de comércio da consciência. Quando encontram um novo padrinho, atiram palavras como pistoleiros de aluguel, sempre certeiros contra o alvo da vez. Mas basta a recompensa escapar-lhes das mãos e o heroísmo desaba. Então entra em cena o velho jus sperniandi: esperneiam com a solenidade dos injustiçados, tentando convencer o público de que uma omelete pode nascer de um único ovo. E, se possível, ainda culpam a galinha pela própria fome.

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

Joseph Pulitzer

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