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Pero Vaz de Caminha

INÍCIO E FIM

Hoje não deveria ser apenas um culto de saudades daqueles que já foram, deveríamos na realidade lembrar que todos temos início e fim. Lembrar que a qualquer momento sem data marcada estaremos entre aqueles que já foram. Para alguns, ao nascermos começamos a morrer. O mundo seria muito melhor se não apenas refletíssemos sobre a morte no dia dos Finados, mas sim por todos os dias, que somos simplesmente mortais. Aos mortos nossos agradecimentos pelo que fizeram ou tentaram fazer. Aos vivos que façam ou tentem fazer um mundo melhor principalmente pelos que ainda virão.

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TERRORISMO DISFARÇADO DE PREVISÃO

Mal começa um novo governo e lá vêm eles: rentistas, bancos, especuladores e outros representantes do mercado financeiro anunciando suas previsões sombrias para a economia do ano seguinte. Inflação fora de controle, crescimento pífio, déficit, desconfiança e toda sorte de ameaças parecem compor um roteiro que se repete a cada mudança de governo. Não se trata de negar a importância das análises econômicas, muito menos de ignorar os riscos reais. A questão é perceber que previsões também podem servir a interesses. Afinal, quem ganha muito com juros elevados, com a dívida pública e com a especulação financeira pode não ter exatamente os mesmos interesses de quem vive do salário, produz, empreende e trabalha. Com a cumplicidade de setores da grande imprensa, muitas dessas projeções ganham manchetes, espaço nobre e aparência

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Pero Vaz de Caminha

ILUSÃO PROJETADA

A gente projeta o futuro como quem traça uma linha reta no papel: limpa, firme, sem borrões. Tudo parece caber ali — planos, certezas, datas marcadas. Mas o tempo, esse sujeito indisciplinado, gosta de dobrar a folha. De repente surgem as inconveniências. Pequenas no começo, quase educadas, pedindo licença para entrar. Depois se espalham: um imprevisto aqui, uma decepção ali, uma conta fora do orçamento, um silêncio onde antes havia promessa. Nada disso estava no projeto. E é nesse instante que o futuro deixa de ser desenho e vira construção de verdade. Porque só permanece de pé o plano que aprende a conviver com os desvios. O resto era ilusão bem-intencionada — bonita no papel, frágil na vida.

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Pero Vaz de Caminha

FATO INEVITÁVEL

Terminadas as eleições, começa um novo espetáculo, talvez o mais divertido da política: a formação do governo. É quando antigos adversários descobrem afinidades até então desconhecidas, velhos desafetos passam a se tratar como amigos de infância e alguns derrotados percebem, subitamente, que sempre estiveram do lado certo — só não tinham encontrado a porta de entrada. Mas a festa tem seu preço. A cada cargo anunciado, um novo aliado se aproxima e outro se afasta. O adversário de ontem chega sorridente, enquanto o companheiro de tantas batalhas sai de cara amarrada, perguntando-se para que serviram os discursos de fidelidade, as caminhadas debaixo de sol e as noites maldormidas na campanha. É a curiosa matemática do poder: ganha-se um apoio, perde-se uma amizade; conquista-se um secretário, perde-se um cabo eleitoral; amplia-se

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DIVIDINDO O PODER

Há quem diga que o Poder não se divide. A afirmação, à primeira vista, parece traduzir uma verdade, sobretudo quando pensamos naqueles que desejam concentrar em suas mãos todas as decisões, vontades e destinos. Afinal, quem chega ao poder muitas vezes acredita que compartilhá-lo significa enfraquecer-se. Mas será mesmo assim? Numa democracia, o poder não precisa ser propriedade de alguém, tampouco instrumento de domínio pessoal. Ele deve ser distribuído, limitado e fiscalizado. É justamente dessa divisão que nasce o equilíbrio entre as instituições e a proteção contra os excessos de quem governa. Talvez a confusão esteja em não distinguir poder de autoridade. O poder pode até ser disputado, mas a autoridade legítima se fortalece quando respeita limites e reconhece outros poderes. A História nos ensina que o poder concentrado tende

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Pero Vaz de Caminha

FRENTISTAS E FRENTES

Quando um governo no Brasil anuncia a criação de uma “comissão” para resolver determinado problema, o cidadão já pode preparar o bolso e perder as esperanças. É quase uma confissão antecipada de que a solução não virá. Afinal, comissão é aquele lugar onde os problemas entram andando e saem de ata, relatório e, eventualmente, uma bela fotografia para o arquivo. Agora, os parlamentares também aderiram à moda, mas resolveram modernizar o vocabulário. Em vez de comissão, criam uma “frente”. Hoje há frente para quase tudo: para defender causas, combater problemas, promover ideias e, principalmente, demonstrar que alguém está fazendo alguma coisa. A diferença entre comissão e frente parece ser apenas semântica. O objetivo continua o mesmo: muita reunião, discursos inflamados, nomes pomposos e resultados discretos, quando não inexistentes. Aliás, uma

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

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