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Pero Vaz de Caminha

PALCO ILUMINADO

Houve um tempo em que convenção partidária fazia jus ao nome. Era o palco onde aspirantes disputavam, no discurso e na articulação, o direito de representar o partido nas urnas. Convencer era a palavra de ordem. Hoje, a cena mudou. Quando as bandeiras são erguidas e os aplausos começam, quase tudo já está decidido. Os candidatos foram escolhidos antes, em reuniões reservadas, longe dos holofotes. A convenção tornou-se o ato de homologar o que já nasceu pronto. Resta a festa. Palanque cheio, militância animada, discursos inflamados e fotos calculadas para mostrar força. O objetivo já não é convencer os próprios correligionários, mas transmitir ao eleitor a imagem de um partido unido, robusto e capaz de mobilizar multidões. É uma demonstração de musculatura política. No fim, a convenção deixou de ser

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DENÚNCIAS EM PENDRIVE

Houve um tempo em que escândalos tinham peso. Literalmente. Eram carregados em pastas de papelão, abarrotadas de documentos, fotografias, recortes de jornais e anotações. O denunciante chegava solene, debaixo do braço, trazendo o objeto que prometia mudar os rumos da política. A imagem da pasta fechada despertava curiosidade; aberta, causava arrepios. Quem viveu aqueles anos certamente se recorda da famosa pasta cor-de-rosa do senador Antônio Carlos Magalhães, que ganhou notoriedade por reunir documentos contra o presidente Fernando Henrique Cardoso. A cor chamava atenção, mas era o conteúdo que alimentava manchetes, debates e especulações. A pasta virou personagem da política brasileira. Naquela época, parecia que a gravidade de uma denúncia podia ser medida pela espessura do volume. Quanto mais recheada a pasta, maior a expectativa. Era quase um ritual: abrir os

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O FANTASMA QUE ASSUSTA O TRUMP

Durante décadas, bastava pronunciar a palavra “comunismo” para que governos, estrategistas e potências internacionais justificassem alianças, intervenções e disputas por influência na América Latina. Era o tempo da Guerra Fria, quando a ideologia parecia explicar todos os movimentos do tabuleiro geopolítico. O mundo, porém, mudou. O muro caiu, a União Soviética desapareceu e a economia global passou a girar em torno de novos interesses. Mesmo assim, o velho fantasma ainda é convocado ao debate, como se o calendário tivesse parado no século passado. Há analistas da política internacional que sustentam que o comunismo, hoje, funciona mais como um discurso mobilizador do que como a verdadeira razão das disputas. O centro da questão estaria em outro lugar: na transformação da economia mundial e na redistribuição do poder econômico. Nesse cenário, a

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CAPAS QUE ENGANAM

Há quem atravesse a vida vestindo capas. Uma para parecer honesto, outra para parecer justo, outra ainda para convencer os distraídos de que é sempre a vítima da história. O tinhoso esperto sabe representar como poucos. Chora quando convém, acusa quando precisa e esconde, com habilidade, as próprias manobras. Mas o tempo tem um costume implacável: derruba disfarces. As capas vão caindo uma a uma, e a nudez da verdade revela aquilo que sempre esteve escondido. Onde muitos enxergavam seriedade, existia apenas encenação. Onde parecia haver caráter, havia somente conveniência. No fim, a verdade não precisa correr; ela apenas espera. E, como ensina o velho ditado, quem tem rabo de palha não atiça — nem passa perto do fogo.

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APENAS RÓTULOS

Infelizmente, voltam a ganhar força no Brasil as antigas disputas entre esquerda e direita, como se o destino do país dependesse apenas de escolher um dos lados. Em grande parte do mundo, essa dicotomia perdeu espaço para o pragmatismo. Onde ela ainda existe, a democracia convive naturalmente com a alternância de poder, sem transformar adversários em inimigos. Por aqui, entretanto, muitos brasileiros acabam recebendo rótulos sem sequer conhecerem, em profundidade, as diferenças entre essas correntes de pensamento. Basta defender uma medida específica para ser imediatamente enquadrado em um dos extremos, ainda que sua posição seja apenas circunstancial ou baseada no bom senso. Há também os que vestem uma bandeira apenas por conveniência. Transformam ideologias em instrumentos de marketing eleitoral, recorrendo a discursos inflamados e demagogias baratas para conquistar votos, enquanto

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ANTIGO GOLPE

Quem acompanha a política há algum tempo já aprendeu a decifrar certos movimentos que se repetem a cada eleição. Não é raro surgirem pesquisas às vésperas das convenções partidárias apontando cenários que, curiosamente, parecem mais voltados a animar uma candidatura em dificuldade do que a retratar o humor do eleitorado. Os analistas costumam dizer que o eleitor está calejado. Sabe que, muitas vezes, esses números têm outro endereço: convencer aliados indecisos a permanecerem no barco e transmitir uma sensação de força que nem sempre encontra respaldo nas urnas. No fim das contas, essa estratégia já perdeu o brilho da novidade. É uma prática eleitoral antiga, bastante surrada, que se repete em quase toda campanha. E o eleitor, cada vez mais atento, costuma reservar seu verdadeiro veredito para o único lugar

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

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Joseph Pulitzer

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