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Pero Vaz de Caminha

NÃO SERVE NA POLÍTICA

Dizem que só se joga pedra em árvore que dá fruto. Bonita frase. Conforta egos, adoça derrotas e serve como analgésico para quem vive cercado de críticas. Na política partidária, então, o provérbio ganha status de tese científica: quanto maior a chuva de pedradas, maior deve ser o pomar. É uma lógica curiosa. Se um candidato é alvo de ataques, logo aparecem os intérpretes do destino garantindo que aquilo é prova de sua grandeza. Afinal, ninguém perde tempo mirando o irrelevante. Por esse raciocínio, bastaria contar as pedras para descobrir o vencedor, dispensando debates, propostas e até eleições. O problema é que nem toda pedra encontra uma árvore carregada de frutos. Algumas acertam troncos ocos, outras são lançadas por puro esporte, e há ainda as que voam apenas porque alguém

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ILUSIONISMO NA CAMPANHA

Todo período eleitoral tem um fenômeno curioso: basta abrir as redes sociais para descobrir que determinado candidato já venceu a eleição… pelo menos na internet. É uma enxurrada de declarações de amor, fidelidade eterna, fotos, vídeos, bandeiras, corações e textos emocionados. Quem observa de fora conclui que a disputa acabou antes mesmo de começar. Diante de tanta demonstração pública de apoio, fica a impressão de que não há mais um voto sequer a conquistar. O candidato já pode encomendar o discurso da vitória, mandar passar o terno e apenas aguardar o anúncio oficial das urnas. Mas a urna tem um estranho hábito de não contabilizar curtidas, compartilhamentos nem comentários inflamados. Ela insiste em contar apenas votos. E, de quatro em quatro anos, lembra que a internet faz muito barulho, mas

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NA CONQUISTA DA CADEIRA

Alguns analistas da política brasileira afirmam que raramente se viu um número tão grande de postulantes à Presidência da República com currículos e propostas considerados superficiais para ocupar o cargo mais importante da nação. Enquanto isso, o eleitor assiste ao desfile, tentando distinguir estadistas de aventureiros. A participação política cresceu como rabo de cavalo: comprida, vistosa e chamativa. Mas cabelo comprido não faz do cavalo um campeão. Da mesma forma, multiplicar candidaturas não garante líderes preparados. No fim, a democracia continua fazendo a mesma pergunta de sempre: entre tantos nomes, quem realmente está à altura da cadeira que pretende ocupar?

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ENXAQUECA POLÍTICA

Há tempos a política brasileira convive com reviravoltas, mas a grande novidade da temporada parece ser a enxaqueca providencial. Surge na véspera da convenção, aperta justamente na hora do palanque e, por coincidência, desaparece quando os ventos mudam de direção. Nessas horas, volta à memória a frase do mineiro Magalhães Pinto: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito; olha de novo e ela já mudou.” Hoje, talvez fosse preciso apenas um pequeno adendo: às vezes, entre uma nuvem e outra, aparece uma dor de cabeça conveniente. E, como quase tudo na política, também ela passa… conforme a previsão do tempo eleitoral.

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PRÓPRIO REFLEXO

É comum ouvir o povo reclamar dos políticos, como se eles tivessem surgido de um lugar distante, sem qualquer ligação com quem os escolheu. Mas, na democracia, o voto funciona como um espelho: nele se reflete a consciência, a esperança, a indignação e, às vezes, até a omissão de uma sociedade. O bom ou o mau governante não aparece por acaso. Ele chega ao poder pelas mãos de quem acredita, confia ou simplesmente decide. Por isso, antes de apontar apenas para os representantes, talvez seja necessário olhar para os representados.William Shakespeare escreveu – “Não existe nada de bom ou mau, é o pensamento que o faz assim”. A frase lembra que nossa percepção molda os julgamentos, mas também que as escolhas nascem da forma como pensamos. Se queremos uma política

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‘O SORRISO DO LAGARTO’ NAS CONVENÇÕES

As fotografias das recentes convenções partidárias parecem ter sido cuidadosamente ensaiadas. Sorrisos largos, abraços coreografados, aplausos sincronizados e olhares que procuram transmitir confiança. Tudo muito limpo, muito iluminado, muito convincente. A política contemporânea, afinal, aprendeu a posar para as redes sociais antes mesmo de encarar a realidade. Mas há fotografias que contam mais pelo que escondem do que pelo que revelam. Atrás do enquadramento perfeito, permanecem as disputas silenciosas, os acordos de bastidores, as conveniências e as ambições que jamais caberiam em uma legenda otimista. O retrato oficial é apenas a superfície; a história verdadeira costuma caminhar pelos corredores, longe das câmeras. É difícil olhar essas imagens sem lembrar de O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro. No romance — e na marcante adaptação televisiva —, o sorriso do

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

Joseph Pulitzer

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