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Pero Vaz de Caminha

TRAVE NOS PRÓPRIOS OLHOS

Há quem entre pela porta da religião carregando, escondida no bolso, uma agenda que nada tem de espiritual. Aproxima-se dos templos, conquista confiança, usa palavras de fé e, pouco a pouco, transforma a crença em palanque para interesses políticos e partidários. Talvez essas pessoas devessem parar por um instante e recordar um ensinamento antigo, simples e profundo da Bíblia: “Tirar a trave do próprio olho.” Antes de apontar o dedo para os defeitos dos outros, é preciso ter coragem para olhar para dentro. Antes de se apresentar como defensor da moral, da verdade e dos bons costumes, convém perguntar se as próprias atitudes estão de acordo com aquilo que se prega. A fé não deveria ser instrumento de poder, muito menos esconderijo para ambições pessoais. Religião é espaço de consciência,

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Pero Vaz de Caminha

COINCIDÊNCIAS OU CONTINUIDADE?

Há exatos 13 anos, num 31 de agosto, São Paulo assistia a uma cena que parecia saída de uma crônica de humor, mas carregava um recado sério: manifestantes ligados aos Black Blocs atiraram esterco contra a sede da Globo. O alvo não era apenas um prédio. Era o que aquele prédio simbolizava: o poder de poucos veículos em decidir o que merece ser notícia, o que ganha destaque e, principalmente, como os acontecimentos serão contados. O protesto foi grosseiro, certamente. Mas talvez justamente por isso tenha chamado tanta atenção. Quando palavras parecem não atravessar os muros do poder, alguém sempre encontra uma maneira mais barulhenta de bater à porta. Treze anos se passaram. A tecnologia mudou, as redes sociais cresceram e hoje qualquer pessoa pode publicar sua versão dos fatos.

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Pero Vaz de Caminha

O TRUQUE PARA ENGANAR

Na política, como no palco, há quem conheça bem a arte do ilusionismo. O mágico distrai a plateia enquanto faz desaparecer uma moeda; a campanha eleitoral, com suas trucagens virtuais, pode fazer surgir uma multidão onde ela não existiu. Nas redes sociais, imagens manipuladas, ângulos cuidadosamente escolhidos e recursos digitais conseguem transformar um pequeno grupo em uma grande manifestação. Por alguns instantes, a aparência tenta ocupar o lugar da realidade. Mas eleição não deveria ser espetáculo de mágica. O eleitor merece verdade, não truques. Quem precisa fabricar uma multidão para convencer que tem apoio talvez esteja justamente revelando a falta dele. Uma candidatura que recorre à esperteza para criar uma realidade que não existe pode até enganar alguns olhos, mas não deveria merecer a confiança de ninguém.

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SEMPRE DESCONFIANDO

Há quem confunda esperteza com inteligência. Talvez porque, nos tempos atuais, saber enganar tenha ganhado ares de competência estratégica. A velha malandragem, que antes precisava de lábia, disfarce e alguma criatividade, encontrou na internet um território vasto, veloz e, muitas vezes, pouco vigilante. É preciso ter cuidado com os chamados sites fakes — aqueles que se apresentam com aparência de notícia, mas carregam no conteúdo a intenção de fabricar versões, distorcer fatos ou simplesmente inventá-los. A fórmula é antiga: denegrir quem interessa denegrir, incensar quem convém incensar. O alvo muda; a tática, não. E por trás da cortina podem estar interesses próprios ou mandantes interessados em conduzir a opinião alheia. O problema é que a mentira, quando bem vestida, costuma passar por verdade. Um título convincente, uma fotografia verdadeira deslocada

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Pero Vaz de Caminha

DISPUTA PELO CRÉDITO EM BACURITEUA

Na Vila do Bacuriteua, o asfalto virou assunto de disputa na campanha eleitoral. O ex-prefeito de Bragança, Raimundão, agora candidato a deputado estadual, já avisou: vai preparar um comitê por lá. O candidato faz questão de dizer que o asfalto não teria vindo de recursos enviados pelo deputado estadual Vítor Dias, mas, segundo sua versão, de articulações da deputada federal Renilce Nicodemos de olho na reeleição e de Jader Filho, que também visa uma cadeira na Câmara dos Deputados. E assim segue a velha crônica eleitoral: enquanto a máquina trabalha de um lado, os discursos trabalham do outro. Em Bacuriteua, o asfalto pode até ser novo, mas a disputa para saber quem merece o crédito já começou.

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Pero Vaz de Caminha

NO PODER GLOBAL

A chamada grande mídia brasileira não gosta quando alguém a chama de “quarto poder”. Parece pouco. Quarto é quase fila de espera, posição secundária, coisa de quem observa de fora. Na prática, age como se fosse o primeiro. Não precisa disputar eleição, nem apresentar candidato. Basta escolher quem merece luz, quem merece silêncio e, sobretudo, quem parece adequado para ocupar a cadeira. Depois, é só soprar os ventos certos e esperar que a marionete descubra que está dançando. O curioso é que, quando alguém aponta os fios, a mídia se ofende. Afinal, marionetes existem — mas ninguém gosta de admitir que segura as cordas.

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

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