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Pero Vaz de Caminha

VALE A PENA RELEMBRAR

Em 1963, o Brasil parecia viver com os nervos à flor da pele. Nas ruas, nos jornais e nos discursos políticos, cada palavra ganhava um peso enorme. O governo de João Goulart enfrentava uma forte oposição, enquanto diferentes grupos disputavam os rumos que o país deveria seguir. A imprensa tinha um papel central nesse cenário. Manchetes alarmistas, críticas ao governo e denúncias sobre a crise política ajudavam a aumentar o clima de insegurança. Ao mesmo tempo, movimentos sociais e setores populares defendiam reformas profundas, como a reforma agrária. Para muitos, era a esperança de um Brasil mais justo; para outros, era o sinal de que o país caminhava para o caos. O ambiente foi ficando cada vez mais dividido. O diálogo parecia perder espaço para a desconfiança, e a política

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Pero Vaz de Caminha

ESPETÁCULO DE SERVILISMO

Na vida pública, há sempre os que não apenas seguem o chefe, mas se antecipam a ele. São os subservientes de plantão, especialistas em transformar qualquer absurdo em virtude e qualquer erro em estratégia. Não medem esforços. Distorcem fatos, atacam adversários, inventam justificativas e, quando necessário, recorrem aos métodos mais espúrios. Tudo em nome da lealdade — embora, quase sempre, seja apenas interesse vestido de fidelidade. O curioso é que, quando o chefe muda de lado, eles mudam também. A convicção permanece intacta; só muda o dono. Na política, talvez não exista maior espetáculo de servilismo do que aquele em que alguém perde a própria dignidade para defender a dignidade de outro.

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Pero Vaz de Caminha

MUDANÇA RADICAL

Sempre gostei de futebol. Gostava daquele futebol que cabia numa tarde de domingo, numa bola velha, numa camisa do time e numa conversa interminável depois do jogo. Gostava da ansiedade antes de a bola rolar, do rádio ligado, do grito que escapava pela janela quando saía um gol. Futebol era paixão, memória, identidade. Era uma coisa que não precisava de explicação. A gente não torcia porque alguém havia feito uma pesquisa de mercado e descoberto nosso perfil de consumidor. Torcia porque o coração tinha escolhido um escudo. Com o tempo, alguma coisa mudou. O futebol deixou de ser apenas esporte e passou a ser, cada vez mais, um grande negócio. Os clubes viraram empresas, as camisas viraram vitrines ambulantes, os jogadores passaram a ser ativos financeiros, os campeonatos ganharam nomes

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Pero Vaz de Caminha

FALTA VISÃO

O que já foi dito em outro momento, hoje precisa ser reafirmado. Não por insistência, mas porque a realidade permanece diante de nossos olhos: ainda falta sensibilidade pública quando o assunto é a Amazônia. Fala-se muito da região. Fala-se de preservação, de desenvolvimento, de integração, de soberania. Discursos não faltam. O que parece faltar é um projeto político capaz de transformar palavras em caminhos — literalmente. É difícil compreender que, em uma região de dimensões continentais, com rios que atravessam territórios e possibilidades naturais de circulação, ainda não tenhamos uma política consistente para transportes mais adequados à realidade amazônica. Onde estão os grandes projetos de desenvolvimento por meio das hidrovias? Onde estão as ferrovias planejadas para integrar produção, cidades e mercados com menor impacto e maior eficiência? A Amazônia não

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Pero Vaz de Caminha

 A FINALIDADE É O PODER

Na política brasileira, há abraços que parecem apertados demais para serem sinceros. São encontros entre antigos adversários, inimigos de ontem que hoje dividem o mesmo palanque, o mesmo discurso e, às vezes, até o mesmo sorriso para a fotografia. Grande parte das candidaturas nasce com um objetivo muito claro: chegar ao poder. E, quando o poder está em jogo, algumas diferenças que pareciam inegociáveis tornam-se apenas detalhes. O antigo inimigo passa a ser chamado de aliado; a crítica feroz vira elogio estratégico; o passado, convenientemente, perde a memória. Não se trata de dizer que alianças são sempre erradas. A política exige diálogo, negociação e, muitas vezes, a convivência entre pensamentos diferentes. O problema aparece quando a busca pelo poder é maior que qualquer princípio — quando não importa quem esteja

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Pero Vaz de Caminha

TRAVE NOS PRÓPRIOS OLHOS

Há quem entre pela porta da religião carregando, escondida no bolso, uma agenda que nada tem de espiritual. Aproxima-se dos templos, conquista confiança, usa palavras de fé e, pouco a pouco, transforma a crença em palanque para interesses políticos e partidários. Talvez essas pessoas devessem parar por um instante e recordar um ensinamento antigo, simples e profundo da Bíblia: “Tirar a trave do próprio olho.” Antes de apontar o dedo para os defeitos dos outros, é preciso ter coragem para olhar para dentro. Antes de se apresentar como defensor da moral, da verdade e dos bons costumes, convém perguntar se as próprias atitudes estão de acordo com aquilo que se prega. A fé não deveria ser instrumento de poder, muito menos esconderijo para ambições pessoais. Religião é espaço de consciência,

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

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