Nos municípios brasileiros, a política tem memória curta, mas comparação longa. Basta a troca de gestor para que o passado volte a circular em discursos, entrevistas e mesas de café, quase sempre como espelho — ou como espantalho — do presente. Os gestores passados ganham duas versões com o tempo: a romantizada e a demonizada. Na primeira, “naquela época tudo funcionava”, as ruas eram mais limpas, o servidor mais respeitado, a prefeitura mais organizada. Na segunda, herdada pelos atuais, sobra sempre uma terra arrasada, cofres vazios, contratos suspeitos e promessas que nunca saíram do papel. Curiosamente, ambas convivem na mesma cidade, separadas apenas pelo interesse de quem conta a história. O gestor atual, por sua vez, vive o dilema da vitrine. Diferente dos antecessores, governa sob o olhar constante das redes sociais, onde uma obra inacabada pesa mais do que dez concluídas e um erro viraliza mais rápido que qualquer acerto. Se faz, é acusado de propaganda; se não faz, de incompetência. E, para se afirmar, quase sempre precisa se diferenciar: “antes não se fazia, agora se faz”; “antes era abandono, agora é cuidado”. Há também a mudança de comportamento. Gestores passados apareciam pouco, falavam menos e decidiam muito em gabinetes fechados. Os atuais falam muito, aparecem o tempo todo e, às vezes, decidem menos do que mostram. A política municipal saiu da ata para o story, do relatório técnico para o vídeo com trilha sonora e legenda otimista. No fundo, o que permanece é a prática antiga de governar olhando pelo retrovisor. O passado serve de desculpa para atrasos e o presente vira promessa para justificar o futuro. Enquanto isso, o cidadão, que não governa nem ontem nem hoje, continua comparando buracos, filas, salários e serviços — sem romantizar nem demonizar, apenas vivendo. Porque, no fim das contas, gestor bom não é o que fala mal do passado nem o que vive de se promover no presente, mas aquele que entende que o tempo passa, os discursos mudam, e o município continua ali, esperando mais gestão e menos comparação.