DISCURSOS SEM APARTES

Hoje, o plenário anda meio vazio, mas a internet vive lotada. Os discursos, antes ensaiados para ecoar nas tribunas, agora cabem em vídeos curtos, legendas bem-humoradas e frases de efeito. O microfone oficial perdeu espaço para o celular em modo selfie, sempre mais disposto a ouvir aplausos virtuais. Nas casas legislativas, as cadeiras seguem alinhadas, pacientes, enquanto os parlamentares preferem falar com algoritmos do que com colegas. Afinal, na tribuna há réplica, tréplica e ata; nas redes, há curtidas, compartilhamentos e a confortável sensação de falar sozinho sem ser interrompido. Comissões discutem temas complexos para poucos atentos, enquanto stories resumem tudo em quinze segundos, com direito a filtro e trilha sonora. O debate vira postagem; o argumento, slogan; a política, performance. No fim, o Parlamento continua de portas abertas, mas os discursos passeiam livres pela internet, onde não precisam de quórum nem de oposição presente. Resta saber se governar por curtidas resolve problemas reais ou se, mais cedo ou mais tarde, alguém vai lembrar que tribuna não é figurante — é palco de decisão.

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