De que vale querer consertar depois da casa arrombada? A porta, antes esquecida, ganha tranca nova, cadeado reluzente, até alarme se instala — tudo muito bonito, muito tarde. O silêncio que fica não é de paz, é de ausência. Levaram o que havia de mais valioso: o descuido que fingia ser confiança. A gente tem dessas manias. Deixa pra depois o cuidado, a palavra, o gesto. Vai empurrando com a barriga até o mundo dar um empurrão de volta. E quando a falta aparece, grande e escancarada, corre-se atrás do prejuízo como quem tenta recolher água derramada. Mas casa arrombada ensina, ainda que do jeito mais duro. Ensina que zelo não combina com pressa, que atenção não se improvisa, que certas perdas não aceitam remendo. E talvez, só talvez, na próxima porta — seja de madeira, seja de afeto — a gente bata antes de entrar no descuido outra vez.