Na política do interior, o inimigo raramente vem de fora. Às vezes mora logo ali, na mesma sigla, no mesmo grupo, no mesmo palanque — só muda o microfone. Em Santa Esperança (um município fictício), o partido da situação estadual andava dividido em duas alas: a do “doutor” e a do “cumpadre”. Os dois juravam lealdade à mesma bandeira, repetiam o mesmo discurso, elogiavam o mesmo governador e até tiravam foto abraçados em dia de inaugurações. Mas bastava a câmera desligar pra começar o empurra-empurra. Um dizia que o outro “não tinha base”, o outro retrucava que “quem não tem voto é ele”. E assim seguiam, como dois galos dentro do mesmo terreiro, disputando quem cacarejava mais alto pela ração do poder. Nas redes sociais, era uma beleza: cada um tentava parecer mais fiel ao partido do que o outro. Um postava foto ao lado do símbolo partidário e legendava: Aqui é lealdade de verdade ! O outro respondia com uma selfie diante do diretório: Aqui é coerência verdadeira! — e o povo, divertido, curtia os dois, só pra ver o circo pegar fogo. Enquanto isso, a oposição só observava, de camarote, tomando café e anotando as brigas. Afinal, quando o adversário se mata sozinho, não há necessidade de munição. No fim, a legenda partidária continuava a mesma, mas o significado já era outro: P de Partido, S de Separado. E o eleitor, cansado, resumia com sabedoria popular:
— Esses dois tão brigando não é por ideia, é por quem vai continuar sentado na cadeira do poder.