O USO DAS MÃOS

Na disputa pelo poder é possível entender o que já advertia Augusto dos Anjos, em outras situações: a mesma mão que afaga também apedreja. Entre gestos de apoio e atos de traição, revela-se a dualidade humana — onde o interesse muitas vezes fala mais alto que a lealdade. É curioso observar: ontem, eram abraços, tapinhas nas costas, promessas ditas quase ao pé do ouvido. Hoje, as mesmas mãos se levantam — não mais em gesto de afeto, mas de ataque. Aplausos viram pedras com uma rapidez que assusta, mas nunca surpreende. No jogo do poder, o carinho costuma ter prazo curto. Ele dura enquanto convém, enquanto serve, enquanto soma. Depois disso, transforma-se sem cerimônia. E é aí que a frase ganha corpo, deixa de ser poesia e vira retrato: a mão que afaga é a mesma que apedreja. Talvez não seja cinismo — talvez seja só a natureza humana, crua, exposta, sem disfarces. Ou talvez seja exatamente isso: o velho hábito de trocar afeto por interesse, lealdade por oportunidade. No fim, o poeta não exagerava. Ele apenas via com mais clareza.

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