Ele saiu do cargo como quem fecha uma porta com cuidado, mas deixou a janela escancarada. Desde então, vive de aparições: uma entrevista aqui, uma opinião ali, sempre com a mesma urgência de quem teme ser esquecido. Não governa mais, mas comenta como se ainda assinasse decretos invisíveis. Circula por eventos, cumprimenta como autoridade, posa para fotos com a segurança de quem já foi — e quer continuar sendo, ao menos no imaginário. Fala em bastidores, sopra conselhos, planta frases de efeito que brotam nas manchetes do dia seguinte. No fundo, parece disputar com o próprio tempo. Porque o poder, quando passa, leva consigo o silêncio — e ele, claramente, ainda não aprendeu a escutá-lo.