UM ABSURDO MISTURADO COM ABUSO

Há um ruído estranho no ar. Não vem das interferências atmosféricas nem do chiado dos transmissores antigos. Vem de dentro. Dos estúdios alugados, das grades vendidas em fatias, dos microfones transformados em balcões de negócios. A terceirização de horários em emissoras de rádio e televisão, prática que nasceu sob o argumento da sobrevivência financeira, acabou abrindo espaço para algo muito maior — e muito mais perigoso. Criaram-se verdadeiras escuderias de oportunistas. Grupos que compram horários como quem aluga um ponto comercial em avenida movimentada. Entram no ar revestidos de autoridade moral, falando em defesa da família, da ordem, da justiça e da sociedade. Mas, por trás do discurso inflamado e da trilha sonora dramática, muitas vezes se esconde um mecanismo perverso: o uso da comunicação como ferramenta de intimidação, chantagem e exploração. O microfone, que deveria servir ao interesse público, passa a funcionar como instrumento de pressão. Denúncias seletivas aparecem e desaparecem conforme conveniências obscuras. Certas vozes se tornam intocáveis. Certos “justiceiros eletrônicos” agem como se fossem promotores, juízes e carrascos ao mesmo tempo. E o pior: alguns se alimentam justamente do medo coletivo que ajudam a fabricar diariamente. Há casos em que o cidadão é exposto antes de qualquer investigação séria. Empresas são ameaçadas nas entrelinhas. Gestores públicos vivem acuados entre o silêncio conveniente e o escândalo televisionado. Quando dinheiro público se mistura a interesses privados dentro desse ambiente nebuloso, o terreno fica ainda mais tóxico, aproximando práticas que lembram extorsão e até peculato travestido de prestação de serviço social. Tudo isso acontece diante de uma plateia cansada, mas ainda hipnotizada pela velha força da comunicação de massa. Porque rádio e televisão continuam carregando um peso simbólico enorme. Quem fala no ar ainda ganha aura de verdade. E é exatamente aí que mora o perigo. Não se trata de atacar a liberdade de imprensa — ela é indispensável. O problema começa quando concessões públicas, que pertencem à sociedade, deixam de cumprir sua função e se tornam território de mercadores da influência, profissionais do escândalo e empresários da indignação. Até quando? Até quando concessões públicas serão usadas como trincheiras privadas? Até quando a ausência de fiscalização permitirá que o interesse coletivo seja sequestrado por grupos que transformaram a comunicação em negócio de pressão e medo? O silêncio das autoridades ajuda a normalizar o absurdo. E o costume, quando aceita o abuso como paisagem, vira cumplicidade.

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“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

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