Sempre gostei de futebol. Gostava daquele futebol que cabia numa tarde de domingo, numa bola velha, numa camisa do time e numa conversa interminável depois do jogo. Gostava da ansiedade antes de a bola rolar, do rádio ligado, do grito que escapava pela janela quando saía um gol. Futebol era paixão, memória, identidade. Era uma coisa que não precisava de explicação. A gente não torcia porque alguém havia feito uma pesquisa de mercado e descoberto nosso perfil de consumidor. Torcia porque o coração tinha escolhido um escudo. Com o tempo, alguma coisa mudou. O futebol deixou de ser apenas esporte e passou a ser, cada vez mais, um grande negócio. Os clubes viraram empresas, as camisas viraram vitrines ambulantes, os jogadores passaram a ser ativos financeiros, os campeonatos ganharam nomes de patrocinadores e cada espaço disponível passou a ter um preço. Até a paixão parece ter entrado na planilha. Não tenho nada contra quem ganha dinheiro com seu trabalho. Jogadores, treinadores, dirigentes, empresários, profissionais de mídia e tantos outros têm o direito de serem remunerados. O problema é quando o dinheiro deixa de ser consequência do futebol e passa a ser a razão principal para a existência dele. E, nessa transformação, quem continua pagando a conta é o torcedor. É ele quem compra a camisa. É ele quem paga a assinatura para assistir aos jogos. É ele quem compra ingresso cada vez mais caro. É ele quem atravessa a cidade, enfrenta chuva, sol, trânsito e filas. É ele quem sofre quando o time perde e comemora como criança quando ganha. A paixão do torcedor virou uma espécie de matéria-prima de uma indústria bilionária. Clubes, federações, empresários, emissoras, plataformas, patrocinadores e tantos outros disputam uma fatia desse enorme mercado emocional. E talvez o mais curioso seja que todos parecem saber exatamente quanto vale um gol, um jogador, um contrato, uma transmissão ou uma camisa — menos quanto vale a própria paixão. Porque paixão não tem preço. Ou, pelo menos, não deveria ter. Eu sei que o futebol sempre teve dinheiro. Não sou ingênuo a ponto de imaginar que existiu uma época completamente romântica, sem interesses, contratos ou negócios. Mas havia uma diferença importante: o dinheiro parecia estar ao redor do futebol. Hoje, muitas vezes, parece estar no centro dele. E quando o dinheiro ocupa o centro, todo o resto vai sendo empurrado para as margens. A conversa sobre o jogo dá lugar à discussão sobre direitos de transmissão. O jogador é analisado pelo valor de mercado antes de ser lembrado pelo que faz com a bola. O clube é avaliado como ativo. O campeonato vira produto. O torcedor vira consumidor. E eu, que um dia fui apenas torcedor, comecei a me sentir cliente. Talvez seja por isso que tenha mudado. Não deixei de gostar de futebol. Acho que ainda gosto profundamente dele. O que deixei para trás foi a disposição de aceitar qualquer coisa em nome dessa paixão. Ainda me emociono com uma jogada bonita. Ainda paro para ver uma partida quando encontro aquele futebol que parece jogar por amor à bola. Ainda sinto alguma coisa quando vejo uma torcida cantando junto, sem precisar de roteiro, patrocínio ou espetáculo. Talvez eu ainda procure o futebol que conheci. Aquele que não precisava ser bilionário para ser grandioso. Aquele em que o jogador era lembrado pelo talento, o clube pela sua história e o torcedor não era apenas alguém com um cartão de crédito no bolso. No fundo, talvez eu não tenha deixado o futebol. Talvez tenha apenas me afastado daquilo que fizeram com ele. Porque futebol, para mim, nunca foi uma empresa. Foi paixão. E paixão, quando começa a ser tratada apenas como negócio, inevitavelmente perde um pouco daquilo que a fazia verdadeira.