“AMANTES” DA “VIÚVA”

Há um empresariado brasileiro — ou seria melhor dizer um certo “capitalismo podre”, instalado há décadas no país — que descobriu uma maneira elegante de esconder suas velhas práticas: passou a chamá-las simplesmente de “mercado”. É uma palavra bonita, neutra, quase inocente. Mercado não tem rosto, não tem partido, não tem ideologia e, aparentemente, também não tem memória. O mercado sobe, o mercado cai, o mercado reage, o mercado se anima. E assim, por uma dessas mágicas da linguagem econômica, homens de carne e osso desaparecem atrás de uma abstração. Agora, diante de prisões, investigações e apurações envolvendo velhos negócios, há quem comemore. Um dos sinais mais eloquentes da festa aparece justamente onde se costuma procurar a racionalidade absoluta: nas bolsas de valores. A alta das ações é apresentada como uma espécie de aplauso silencioso do capital diante da nova paisagem. Curioso. Não faz tanto tempo assim, esses mesmos setores empresariais celebravam com entusiasmo as relações pouco republicanas com governos de diferentes matizes. Negócios eram fechados nos corredores do poder, contratos eram generosamente engordados, propinas circulavam e, em troca, vinham benefícios muito maiores — alguns disfarçados de investimentos, outros de incentivos, outros ainda embalados como ajuda eleitoral. Naquele tempo, aparentemente, ninguém se incomodava muito com a saúde moral do capitalismo. O problema é que a memória empresarial costuma ser seletiva. Quando a investigação alcança o outro lado da mesa, descobre-se rapidamente que sempre houve uma preocupação enorme com ética, regras, compliance, governança e disciplina nos negócios. Palavras importantes, sem dúvida. O problema é quando aparecem justamente depois que a fumaça começa a tomar conta do ambiente. Então surgem códigos de conduta, comissões, discursos sobre transparência e promessas de um novo capitalismo, mais responsável e moderno. É possível que algumas dessas iniciativas sejam sinceras. Mas também é possível que algumas sejam apenas ficções cuidadosamente construídas para atravessar a tempestade. Porque há uma diferença entre mudar de comportamento e mudar de discurso. A história recente do país mostra que boa parte do grande capital brasileiro nunca teve grandes dificuldades em conviver com o Estado. Desde que o Estado abrisse a carteira, facilitasse o crédito, concedesse incentivos, perdoasse dívidas, garantisse contratos ou ajudasse a financiar projetos privados. Quando a relação era conveniente, chamava-se parceria público-privada, desenvolvimento ou política econômica. Quando a conta chegava, porém, o Estado passava a ser chamado de “viúva”. E contra a viúva, sabemos, há sempre uma longa fila de interessados. Talvez seja por isso que a comemoração atual mereça alguma cautela. Prisões e investigações podem, evidentemente, ser importantes para o funcionamento das instituições. Mas não deveriam servir apenas para trocar os personagens de uma velha engrenagem. O verdadeiro teste seria saber se o sistema aprendeu alguma coisa. Porque, no Brasil, há uma curiosa capacidade de transformar escândalos em ciclos. Primeiro vem a descoberta. Depois, a indignação. Em seguida, as prisões, as manchetes, os pronunciamentos e as promessas de mudança. Logo aparecem os especialistas em reconstrução de reputações. Finalmente, quando a fumaça baixa, a economia retoma seu curso e a memória coletiva começa a falhar. E então, quase sempre, alguém volta a bater à porta da viúva. Talvez o mais revelador dessa história não seja a bolsa subir quando empresários são investigados. Talvez seja perceber por que determinados empresários só descobrem as virtudes das regras quando percebem que podem ser atingidos por elas.  O capitalismo, afinal, não deveria precisar de propina para funcionar nem de escândalo para descobrir a ética. E mercado nenhum deveria ser confundido com salvo-conduto.

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