UMA QUESTÃO DE ESCOLHA PESSOAL

Nunca é demais lembrar a célebre frase de Martin Luther King Jr.: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” Há pensamentos que atravessam o tempo justamente porque continuam encontrando lugar nos acontecimentos do presente. Essa frase é um deles. Vivemos em uma democracia na qual cada cidadão tem o direito — e, no Brasil, o dever — de escolher seus representantes pelo voto. Ainda assim, não é raro encontrar alguém que diga estar à espera de uma orientação de seu líder religioso para saber em quem votar, como se a consciência individual pudesse ser terceirizada a uma autoridade. A fé pode iluminar caminhos, inspirar valores e ensinar princípios. Mas uma democracia exige cidadãos capazes de pensar, discernir e fazer suas próprias escolhas. Quando o voto deixa de ser uma decisão consciente para se transformar em obediência, perde-se algo essencial: a liberdade. E aqui a história também nos convida à reflexão. Cristo foi condenado à morte na cruz em meio às conveniências políticas e religiosas de seu tempo. A pressão das autoridades, os interesses estabelecidos e o silêncio daqueles que poderiam ter se levantado contribuíram para aquele desfecho. Não se trata de comparar personagens ou acontecimentos de épocas distintas, mas de reconhecer uma velha lição: o silêncio também pode ser uma escolha. Talvez seja justamente por isso que as palavras de Martin Luther King permaneçam tão atuais. O mal nem sempre precisa ser maioria. Às vezes, basta que os bons se calem, que os conscientes se omitam e que os cidadãos entreguem a outros a responsabilidade de decidir por eles. Em uma democracia, ninguém deveria precisar de uma ordem para exercer sua cidadania. O voto é pessoal, a consciência é intransferível e o silêncio, quando diante de uma injustiça ou de uma escolha que exige responsabilidade, também fala. E, muitas vezes, fala alto demais.

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