Uma eleição presidencial pode se transformar, silenciosamente, em quase um plebiscito. Não aquele plebiscito clássico, de apertar um botão entre o “sim” e o “não”, mas outro, mais incômodo, em que a pergunta não aparece escrita na cédula. A pergunta fica suspensa no ar: Quem fez? Quem não fez? Quem prometeu e entregou? Quem prometeu e esqueceu? Quem teve a oportunidade e não teve coragem? Quem encontrou obstáculos reais e quem os usou como desculpa? No fim, talvez a eleição seja menos uma escolha entre nomes e mais uma espécie de acerto de contas com a memória. Cada eleitor chega à urna carregando sua própria lista: o que viu, o que viveu, o que melhorou, o que piorou, o que ficou pelo caminho. E assim, sem que ninguém escreva “sim” ou “não”, o voto pode acabar respondendo a uma pergunta muito mais simples — e muito mais difícil de escapar: Quem fez? E quem nunca fez?