DINHEIRO ALHEIO NÃO TEM VALOR

Diz o velho ditado que dinheiro ganho fácil sai fácil. Em processos penais, porém, a máxima ganha contornos de crônica social, sobretudo quando o Ministério Público resolve abrir a caixa-preta dos gastos de quem está sob suspeita de corrupção. Nos autos, um dos envolvidos teria comprado, em Brasília, via Pix, um cinto feminino de metal por módicos R$ 8.250, um par de brincos de latão por R$ 3.750 e um colar feminino, também de latão, por R$ 5.750. Tudo da grife Louis Vuitton, ou, para os íntimos, o milagre da alquimia: transformar metal e latão em pequenas fortunas. Somadas, as três peças chegam a R$ 17.750. Não é pouca coisa para adornar o corpo. É quase uma joalheria inteira pendurada na cintura, nas orelhas e no pescoço — com a vantagem de que, aparentemente, o preço não se mede pelo metal, mas pelo prestígio da etiqueta. O detalhe mais interessante, contudo, não está no cinto, nos brincos ou no colar. Está no contexto em que essas compras aparecem: uma investigação sobre suspeita de corrupção. Porque, quando o dinheiro entra pela porta dos fundos, parece perder o pudor de sair pela vitrine. A Justiça ainda terá de fazer seu trabalho, e suspeita não é condenação. Mas a crônica dos gastos já oferece uma ironia pronta: há quem aperte o cinto para chegar ao fim do mês; outros, pelo visto, pagam uma pequena fortuna justamente para enfeitá-lo. E assim caminha a sociedade: uns contam moedas para comprar o básico; outros parecem contar com o luxo para esquecer de onde vieram as moedas. No fim, até o latão pode brilhar — embora nem toda etiqueta consiga disfarçar o peso das perguntas.

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“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

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