O PODER EM PRIMEIRO LUGAR

Já se disse, em diferentes ocasiões, que todo político precisa ter aptidão para o poder. Discordamos, em parte. Talvez sim, talvez não. Afinal, uma coisa é ter capacidade para exercer o poder; outra, bem diferente, é fazer dele um objetivo permanente, quase uma obsessão, capaz de justificar os caminhos mais tortuosos. Na política, há quem compreenda o poder como instrumento para realizar ideias, administrar interesses e servir à coletividade. Há, porém, aqueles que parecem enxergar nele a própria razão de existir. Para estes, pouco importa a coerência de ontem ou a palavra empenhada anteontem. O que vale é a possibilidade de chegar, permanecer ou voltar ao lugar de onde se pode mandar. E, nessa corrida, como já se disse em célebre expressão, alguns mandam os escrúpulos às favas. Convenhamos, entretanto, que nem tudo pode ser colocado no mesmo saco. A política exige habilidade, capacidade de negociação e, em determinadas circunstâncias, até mesmo a disposição de rever posições. Afinal, a inflexibilidade absoluta também não costuma ser boa conselheira. O problema começa quando a conveniência se sobrepõe aos princípios, e a coerência passa a ser tratada como um acessório dispensável. É aí que surgem as reconciliações mais curiosas. Adversários de ontem, que trocaram acusações, desferiram golpes políticos e, não raro, trabalharam para prejudicar mutuamente suas trajetórias, aparecem de repente lado a lado, sorridentes, como se antigas desavenças jamais tivessem existido. O que antes era inaceitável torna-se negociável; o que ontem merecia críticas severas hoje recebe explicações generosas. E tudo isso, muitas vezes, em nome de um interesse comum: a conquista de mais poder. Seria ingenuidade acreditar que toda reconciliação política é falsa. A vida pública também comporta amadurecimento, perdão e a legítima compreensão de que divergências não precisam ser eternas. Mas há uma diferença considerável entre superar desentendimentos e simplesmente encenar uma paz que só dura enquanto for conveniente. Nessas ocasiões, a impressão é de que estamos diante de uma peça teatral, com personagens que conhecem muito bem seus papéis. Os sorrisos são distribuídos, os apertos de mão são cuidadosamente registrados e as declarações de unidade ganham destaque. Nos bastidores, contudo, permanece a pergunta que ninguém parece disposto a responder: houve realmente uma mudança de entendimento ou apenas uma mudança de interesse? A cena nos remete a uma expressão bastante conhecida no futebol: jogar para a arquibancada. O atleta, em vez de se preocupar exclusivamente com o jogo, procura impressionar o público, provocar aplausos e conquistar simpatias. Na política, a lógica pode ser semelhante. Faz-se um gesto para as câmeras, ensaia-se um discurso de união e vende-se à opinião pública a imagem de uma harmonia que talvez não resista ao primeiro desacordo. O espetáculo, por vezes, é convincente. Afinal, a política também é feita de imagens, símbolos e narrativas. O difícil é saber onde termina a estratégia legítima e começa a encenação deliberada.  Talvez o melhor caminho esteja justamente no equilíbrio. Nem a ingenuidade de imaginar que os políticos devam permanecer eternamente presos às suas antigas posições, nem a tolerância excessiva com aqueles que mudam de lado conforme a direção dos ventos. Nem muito ao mar, nem muito à montanha, como recomenda a sabedoria popular. No fim das contas, não se trata de condenar toda ambição política, mas de questionar a ambição sem limites. O poder, por si só, não desqualifica ninguém. O que merece reflexão é o preço que alguns parecem dispostos a pagar para alcançá-lo — e, sobretudo, quem acaba pagando essa conta. Porque uma reconciliação verdadeira pode representar maturidade; uma reconciliação por conveniência pode ser apenas uma pausa estratégica entre duas disputas. E, quando o interesse pessoal fala mais alto que as convicções, o abraço pode até ser sincero na fotografia, mas continuar vazio de significado na realidade. Na política, como no futebol, jogar para a arquibancada pode render aplausos momentâneos. O que não garante, porém, uma boa atuação em campo. E o eleitor, que não deveria ser tratado como mero espectador de um espetáculo ensaiado, tem o direito de observar os movimentos, comparar as palavras com os atos e tirar suas próprias conclusões. Afinal, ter aptidão para o poder é uma coisa; acreditar que tudo vale para conquistá-lo é outra, bem diferente.

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