TERRORISMO DISFARÇADO DE PREVISÃO

Mal começa um novo governo e lá vêm eles: rentistas, bancos, especuladores e outros representantes do mercado financeiro anunciando suas previsões sombrias para a economia do ano seguinte. Inflação fora de controle, crescimento pífio, déficit, desconfiança e toda sorte de ameaças parecem compor um roteiro que se repete a cada mudança de governo. Não se trata de negar a importância das análises econômicas, muito menos de ignorar os riscos reais. A questão é perceber que previsões também podem servir a interesses. Afinal, quem ganha muito com juros elevados, com a dívida pública e com a especulação financeira pode não ter exatamente os mesmos interesses de quem vive do salário, produz, empreende e trabalha. Com a cumplicidade de setores da grande imprensa, muitas dessas projeções ganham manchetes, espaço nobre e aparência de verdade incontestável. O pessimismo passa a ser apresentado como ciência, enquanto qualquer perspectiva mais otimista é tratada como ingenuidade ou propaganda. Assim, antes mesmo de qualquer governo mostrar a que veio, instala-se um ambiente de desconfiança e pressão. É uma maneira de dizer aos governantes, desde o primeiro dia, que há interesses poderosos que não aceitam mudanças nas regras do jogo. No Brasil, é preciso aprender a distinguir análise econômica de pressão política disfarçada de previsão. Afinal, a economia não pertence aos bancos, aos rentistas ou aos comentaristas do mercado. Ela deve servir, antes de tudo, à sociedade.

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“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

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