EXAGERANDO

Há políticos que falam tanto em Deus que a gente até pensa que Ele faz parte da assessoria de imprensa. Começam o discurso com “em nome de Deus”, terminam com “se Deus quiser” e, no meio, colocam mais umas dez menções — como se o Criador tivesse delegado a eles a tarefa de representá-Lo no plenário. Esses senhores — e senhoras também — usam o nome de Deus como quem usa crachá: para abrir portas, ganhar respeito e escapar das perguntas difíceis. Quando alguém questiona sobre corrupção, desviam o olhar para o alto e respondem: “Deus sabe de todas as coisas.” E pronto, está encerrado o assunto — afinal, quem ousaria discutir com Deus? Mas o curioso é que Deus, tão presente nos discursos, costuma estar ausente nas atitudes. Ele é lembrado nas palavras, mas esquecido nos atos. Invocado nas campanhas, mas deixado de lado na hora de assinar contratos suspeitos. É um Deus de palanque, um Deus de microfone, um Deus de conveniência. O povo, cansado, ainda aplaude — talvez por costume, talvez por esperança. Mas a verdade é que Deus não precisa de porta-voz na política. Se precisasse, escolheria alguém com menos promessas e mais coerência. No fim das contas, o político que exagera no “Deus pra cá, Deus pra lá” talvez acredite mesmo — mas acredita, sobretudo, que isso dá voto. E, se der certo, vai agradecer mais uma vez: “Graças a Deus.” E o povo, pacientemente, responde: “Amém.”

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“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

Joseph Pulitzer

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