Depois de uma eleição, a cidade amanhece como depois de um jogo decisivo: metade comemora, a outra metade procura explicação no VAR da democracia. E lá estão eles, os vencidos, caminhando pelas ruas como se tivessem levado um golpe do destino — quando, na verdade, só perderam no placar. Ontem eram certezas, hoje são teorias. Tudo virou fraude, conspiração, ingratidão do povo. O eleitor, que até anteontem era sábio, virou massa manipulada da noite para o dia. A democracia só é linda quando dá vitória; quando dá derrota, vira suspeita. “Ai dos vencidos”, repetem, em tom dramático, como se tivessem sido expulsos do paraíso — embora ainda estejam sentados em bons cargos, bons salários e boas desculpas. O problema não é perder, é perder sem poder mandar. E assim seguem, jurando que foram traídos, quando talvez só tenham sido… derrotados. Afinal, na política, como no futebol, quem perde quase nunca aceita que o outro simplesmente jogou melhor.