Na liturgia da política brasileira, há um fenômeno curioso: o deputado que descobre o eleitor apenas no último ano de mandato. Durante três anos, silêncio quase monástico; no quarto, uma súbita iluminação cívica. É quando surgem fotos em obras que não começaram, discursos inflamados sobre problemas antigos e uma enxurrada de “emendas conquistadas” que parecem ter brotado como milagre administrativo. O parlamentar, antes discreto nas sessões e nas pautas relevantes, vira presença constante nas redes sociais, nas rádios e até em velórios — afinal, é preciso mostrar serviço. O mais interessante é o discurso: “preciso continuar para concluir o que comecei”. O eleitor, com a memória um pouco mais exigente, tenta lembrar exatamente o que foi começado. Às vezes encontra uma placa. Outras vezes, nem isso. A reeleição, para alguns, não é a continuidade de um trabalho — é a tentativa de começar um. E aí a pergunta ecoa, silenciosa, mas teimosa: se em quatro anos pouco se fez, qual é mesmo a urgência de mais quatro?