DENÚNCIAS EM PENDRIVE

Houve um tempo em que escândalos tinham peso. Literalmente. Eram carregados em pastas de papelão, abarrotadas de documentos, fotografias, recortes de jornais e anotações. O denunciante chegava solene, debaixo do braço, trazendo o objeto que prometia mudar os rumos da política. A imagem da pasta fechada despertava curiosidade; aberta, causava arrepios. Quem viveu aqueles anos certamente se recorda da famosa pasta cor-de-rosa do senador Antônio Carlos Magalhães, que ganhou notoriedade por reunir documentos contra o presidente Fernando Henrique Cardoso. A cor chamava atenção, mas era o conteúdo que alimentava manchetes, debates e especulações. A pasta virou personagem da política brasileira. Naquela época, parecia que a gravidade de uma denúncia podia ser medida pela espessura do volume. Quanto mais recheada a pasta, maior a expectativa. Era quase um ritual: abrir os grampos, retirar os papéis, exibir as provas diante das câmeras. O papel tinha cheiro, textura e até um certo suspense. Então chegou a tecnologia, silenciosa e implacável. O computador aposentou a máquina de escrever, o e-mail dispensou o envelope, e o pendrive decretou a aposentadoria das velhas pastas. Hoje, um pequeno dispositivo que cabe na palma da mão armazena muito mais informações do que dezenas de pastas abarrotadas. O que antes exigia uma mala inteira agora cabe no bolso da camisa. A evolução trouxe praticidade, mas roubou um pouco do simbolismo. Um pendrive não impressiona pela aparência. Não faz volume, não desperta olhares curiosos e dificilmente rende uma fotografia memorável. É discreto demais para o espetáculo político. A denúncia continua existindo, mas perdeu o cenário teatral que o papel proporcionava.Talvez seja esse o destino inevitável do progresso: tornar eficientes as coisas que antes eram grandiosas. As pastas ficaram para os arquivos e para a memória, enquanto os gigabytes assumiram o comando. Mudaram os instrumentos, mas não os costumes. Afinal, na política, as denúncias continuam surgindo; apenas trocaram o papel pelo arquivo digital. O conteúdo permanece explosivo. Só a embalagem encolheu.

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