REAPRESENTAÇÃO DO COLLOR NA GLOBO

Há discursos políticos que parecem sair de uma velha gaveta, ganhar nova embalagem e voltar à televisão como se ninguém tivesse memória. Na entrevista à Globo, Ronaldo Caiado apresentou ideias que, em alguns pontos, lembram o discurso de Fernando Collor em 1989: combater privilégios, enfrentar a corrupção e resolver problemas nacionais com soluções rápidas. Collor ficou conhecido como o “Caçador de Marajás”, prometendo combater os excessos do funcionalismo. A política virou espetáculo: frases de efeito, inimigos bem definidos e a promessa de que bastaria apertar alguns botões para colocar o país nos trilhos. Mais de três décadas depois, o roteiro parece ser familiar. Mudam os personagens e os slogans, mas permanece a tentação de tratar problemas complexos como se tivessem soluções simples. Corrupção, privilégios, inflação, ineficiência do Estado e desigualdade não desaparecem com uma canetada — muito menos com um “tiro” metafórico. Combater corrupção e privilégios é obrigação de qualquer governante. O problema surge quando a promessa substitui o projeto, a bravata ocupa o lugar da explicação e o eleitor é convidado a acreditar no candidato salvador. A história brasileira já mostrou que bafonias políticas podem render aplausos na campanha e frustações no governo. Prometer soluções instantâneas é fácil; difícil é explicar como serão executadas, quanto custarão e quem pagará a conta. Em1989, o Brasil apostou no homem que prometia caçar marajás e enfrentar os grandes problemas nacionais. O resultado todos conhecemos. Talvez a lição seja simples: antes de acreditar em um novo “caçador de monstros”, é preciso perguntar onde está o projeto, quais são os números e, principalmente, como a promessa será transformada em realidade. Porque discurso bonito pode ganhar eleição. Mas é a realidade que cobra a conta.

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“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

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