SEMPRE DESCONFIANDO

Há quem confunda esperteza com inteligência. Talvez porque, nos tempos atuais, saber enganar tenha ganhado ares de competência estratégica. A velha malandragem, que antes precisava de lábia, disfarce e alguma criatividade, encontrou na internet um território vasto, veloz e, muitas vezes, pouco vigilante. É preciso ter cuidado com os chamados sites fakes — aqueles que se apresentam com aparência de notícia, mas carregam no conteúdo a intenção de fabricar versões, distorcer fatos ou simplesmente inventá-los. A fórmula é antiga: denegrir quem interessa denegrir, incensar quem convém incensar. O alvo muda; a tática, não. E por trás da cortina podem estar interesses próprios ou mandantes interessados em conduzir a opinião alheia. O problema é que a mentira, quando bem vestida, costuma passar por verdade. Um título convincente, uma fotografia verdadeira deslocada de contexto, uma frase atribuída a alguém que jamais a pronunciou e pronto: está criada a pequena fábrica de boatos. Depois, basta compartilhar. Quanto mais gente repete, mais a invenção adquire a aparência de fato. E o “fake”, que nasceu com a promessa de aproximar pessoas, vai se transformando também em território fértil para essas peripécias enganosas. Ali, notícia e fofoca podem ocupar a mesma tela; informação e manipulação podem aparecer lado a lado, com a mesma solenidade. E nem sempre o leitor tem tempo — ou disposição — para perguntar de onde veio aquilo. Por isso, convém recuperar uma virtude que talvez nunca tenha saído de moda: a desconfiança saudável. Não aquela que nos faz duvidar de tudo, mas a que nos ensina a verificar antes de acreditar e, sobretudo, antes de compartilhar. Como São Tomé, melhor ver para crer. E, nos dias de hoje, talvez seja preciso acrescentar: ver, conferir, comparar e só então crer. Porque, quando a esperteza vira tática, o cuidado deixa de ser excesso de prudência. Passa a ser uma forma de inteligência.

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“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

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