O que teria estimulado três candidaturas à Presidência? Há momentos em que a política brasileira parece uma espécie de feira de vaidades, onde cada barraca oferece ao eleitor uma explicação diferente para o mesmo fenômeno: a vontade quase irresistível de chegar ao Palácio do Planalto. É difícil não perguntar o que teria estimulado algumas candidaturas presidenciais que, olhando de fora, parecem desafiar a lógica eleitoral. Ronaldo Caiado deixou o governo de Goiás para entrar na corrida nacional. Romeu Zema, depois de comandar Minas Gerais, também decidiu trocar o conforto relativo de um governo estadual pela imprevisibilidade de uma eleição presidencial. E aparece ainda Augusto Cury, conhecido por seus livros de desenvolvimento pessoal e por ter construído uma enorme fortuna com sua atividade de vendedor. A pergunta, portanto, não é apenas por que querem ser presidentes? Talvez seja outra: o que faz alguém acreditar que chegou a hora de tentar? Na política, pesquisas eleitorais são fotografias — e fotografias podem mudar bastante até o dia da eleição. Mas, quando um político abandona um cargo executivo consolidado para disputar a Presidência começando com percentuais modestos, surge uma questão inevitável: estamos diante de uma estratégia cuidadosamente calculada ou de uma aposta pessoal em um cenário que ainda não apareceu nas pesquisas? Caiado tem uma trajetória política longa e experiência administrativa. Zema construiu sua carreira política mais recentemente e também decidiu colocar seu nome no jogo nacional. Cury, por sua vez, vem de um universo completamente diferente: o da literatura de autoajuda, das palestras, da comunicação e da construção de uma marca pessoal. E talvez esteja aí uma das curiosidades do nosso tempo. A política deixou de ser um território exclusivo dos políticos profissionais. Empresários, comunicadores, influenciadores, escritores e celebridades passaram a enxergar na popularidade construída fora dos partidos uma possível porta de entrada para a política institucional.O fenômeno merece ser observado sem preconceito — mas também sem ingenuidade.Porque vender milhões de livros é uma coisa. Administrar um Estado é outra. Construir uma carreira empresarial é uma coisa. Construir uma maioria parlamentar é outra. E governar um país continental, com 212 milhões de habitantes, é outra completamente diferente.O eleitor, no fim, é quem precisa separar essas coisas.Talvez a pergunta mais interessante não seja quem tem mais coragem para se candidatar. Nem quem tem mais dinheiro, mais seguidores ou mais espaço nas redes sociais. A pergunta é: qual problema do Brasil cada candidato acredita ser capaz de resolver – com quais instrumentos pretende fazê-lo? Porque candidatura presidencial pode nascer de ambição, cálculo, convicção, vaidade, oportunidade ou de uma mistura de tudo isso .E a política brasileira, experiente nesse tipo de enredo, já nos ensinou uma coisa: entre decidir disputar a Presidência e conseguir convencer o país de que se está preparado para governá-lo existe uma distância considerável. Às vezes, essa distância cabe em uma campanha inteira. Às vezes, cabe em uma pesquisa eleitoral.E, não raro, cabe em uma única pergunta feita pelo eleitor: “Mas por que exatamente você quer ser presidente?”