IDEOLOGIA ELÁSTICA

A política brasileira parece ter uma vocação especial para inovar. Enquanto o mundo tenta compreender as velhas ideologias, por aqui alguns políticos parecem empenhados em criar uma nova corrente de pensamento: o socialismo da direita. Nesta eleição, principalmente no segundo turno, certas justificativas parecem desafiar não apenas a lógica, mas também os princípios que, durante décadas, serviram de referência para a esquerda e para a direita. O que antes era inaceitável passa a ser justificável; o que ontem era motivo de crítica hoje se transforma em estratégia. Tudo depende de quem está no palanque e de qual resultado se pretende alcançar. É uma espécie de ideologia elástica, capaz de se esticar até caber em qualquer conveniência. Os princípios ficam em segundo plano, as contradições ganham explicações criativas e as desculpas assumem o papel de argumentos. Afinal, na política, parece que até as convicções podem mudar de lado quando o poder está em jogo. E assim nasce uma curiosa novidade brasileira: uma direita que, em determinadas circunstâncias, adota práticas e discursos que antes condenava, enquanto encontra justificativas para conciliar o inconciliável. Talvez o Brasil esteja mesmo inovando na política. Só falta saber se estamos diante de uma nova ideologia ou apenas de uma velha conhecida: a conveniência disfarçada de convicção. Chegando ao Brasil o socialismo da direita: uma doutrina em que os princípios são de mercado livre, mas as desculpas são distribuídas gratuitamente.

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