ANAIS DA POLÍTICA BRASILEIRA

Na eleição municipal de São Paulo, em 1985, Fernando Henrique Cardoso cometeu uma imprudência simbólica: antes mesmo de a apuração terminar, posou sentado na cadeira de prefeito. Talvez tenha confundido expectativa com vitória, pesquisa com destino, desejo com realidade. Do outro lado estava Jânio Quadros, velho conhecedor dos caprichos da política e de seus rituais. Quando as urnas confirmaram sua vitória, Jânio não deixou passar a oportunidade. Mandou desinfetar a cadeira que o adversário havia ocupado antecipadamente. A cena entrou para o folclore político brasileiro. De um lado, a pressa de quem já se imaginava no poder; do outro, a ironia de quem fez questão de lembrar que o trono ainda tinha dono. Na política, como na vida, há uma diferença entre sentar na cadeira e conquistar o direito de ocupá-la. FHC experimentou o gosto amargo da antecipação; Jânio transformou a vitória em deboche. E a cadeira? Essa ganhou uma história para contar — e uma desinfecção para entrar nos anais da política nacional.

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