O ‘DÚBIO’ E O PASSADO QUE NÃO PASSA

Logo após construir um golpe que, a princípio, parecia ser anunciado como uma ponte para o futuro, o governo de Michel Temer começou a revelar as contradições de seu próprio discurso. Em maio de 2016, logo no início de sua gestão, extinguiu o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, sinalizando que determinadas pautas, embora indispensáveis à construção de uma sociedade democrática, poderiam ser rebaixadas à condição de despesas dispensáveis na reorganização do Estado. A política brasileira tem dessas ironias: vende-se o amanhã com as palavras de ordem da modernização, da responsabilidade e da governabilidade, mas, quando as portas do poder se abrem, são os compromissos sociais que frequentemente ficam do lado de fora. A promessa de futuro, nesse caso, parecia atravessar uma ponte cujos primeiros passos conduziam de volta a velhas práticas de exclusão. Michel Temer, iniciado na vida pública sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, conhecia os meandros da política tradicional, seus acordos de bastidores e sua linguagem cuidadosamente calculada. Ao longo de sua trajetória, tornou-se uma figura associada à negociação e à ambiguidade, características que alimentam a percepção de que, na política, nem sempre o discurso revela o destino pretendido. A dubiedade, quando se transforma em método, permite apresentar uma decisão como necessidade administrativa e, ao mesmo tempo, ocultar as escolhas políticas que ela representa. Extinguir um ministério não significa, por si só, eliminar todas as políticas públicas sob sua responsabilidade. Mas a decisão de reorganizar a estrutura governamental também comunica prioridades. Quando uma pasta dedicada às mulheres, à igualdade racial e aos direitos humanos perde sua autonomia institucional, a pergunta que permanece é inevitável: que lugar essas agendas ocupariam no projeto de país anunciado pelo novo governo? A questão não era apenas administrativa. Mudam-se os slogans, reorganizam-se os gabinetes, anunciam-se reformas. Entretanto, quando as políticas de igualdade perdem centralidade, torna-se legítimo questionar se a modernização proclamada não está servindo também para restaurar hierarquias que a democracia deveria combater. No fim, talvez a maior contradição daquele começo de governo tenha sido justamente esta: falar em futuro enquanto se reduzia o espaço institucional de pautas fundamentais para tornar o país mais justo. A ponte prometida por Temer podia até parecer nova à primeira vista, mas sua construção levantava uma dúvida antiga, recorrente na vida pública brasileira: futuro para quem? Porque uma nação não se mede apenas pela estabilidade de seus governos, pelo equilíbrio de suas contas ou pela habilidade de seus políticos em costurar alianças. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de reconhecer direitos, enfrentar desigualdades e garantir que a democracia não seja apenas um acordo entre os que já ocupam o centro do poder. E, quando a política se acostuma a dizer uma coisa enquanto pratica outra, a dubiedade deixa de ser apenas um traço de seus protagonistas. Transforma-se em método de governo — e o futuro, mais uma vez, corre o risco de ser apenas o nome elegante dado à conservação do passado.

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