VERSÃO DE COMENTARISTA

Há comentaristas políticos que parecem ter aprendido o ofício nas cabines de transmissão do futebol. Imitam os bordões, a entonação dramática e a certeza dos narradores esportivos. O problema é que, enquanto no estádio todos assistem à mesma partida, diante das câmeras alguns insistem em narrar um jogo completamente diferente daquele que o público viu. O lance foi claro, as imagens estão aí, a torcida reagiu, mas o comentarista encontra um jeito de transformar o erro em acerto, a derrota em vitória e o tropeço em jogada de mestre. Não importa o que aconteceu em campo: importa a versão que ele deseja vender. E, quando a paixão entra em campo, a análise costuma sair de cena. Futebol e política têm muito em comum. Ambos despertam paixões, alimentam rivalidades e provocam uma espécie de embriaguez coletiva. Nesses momentos, a razão fica no banco de reservas, enquanto a torcida assume o comando. Ninguém está totalmente imune a isso, nem mesmo quem se julga dono da imparcialidade. O perigo começa quando o comentarista deixa de interpretar os fatos e passa a tentar reescrevê-los. Afinal, uma coisa é torcer; outra, bem diferente, é querer convencer o público de que ninguém viu o que todos acabaram de assistir. No futebol, o placar costuma encerrar a discussão. Na política, infelizmente, há quem prefira prolongar a partida até conseguir fabricar uma vitória no grito. E o mais curioso é que, nessa transmissão, o torcedor pode até acreditar no narrador — mas o campo continua sendo o mesmo.

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