Na política, dizem que ninguém late à toa. Outro dia caminhando na rua, ouvi dois senhores discutindo sobre lealdade — palavra grande, dessas que cabem mais nos discursos do que nos gestos. Um deles jurava que ainda existiam figuras independentes, livres, capazes de morder a própria mão se fosse preciso. O outro apenas riu, com aquele riso cansado de quem já viu muito. “No poder,” disse ele, “até o silêncio tem dono.” Fiquei pensando e de repente vi um cachorro magro atravessando a pista, farejando restos e desviando de carros. Parecia livre, dono de si. Mas bastou um assobio ao longe para ele parar, hesitar, e então correr — obediente — na direção de quem o chamava. Talvez seja assim também com os homens. Podem até andar soltos, rosnar alto, mostrar os dentes em público. Mas, no fim, sempre há um chamado que poucos conseguem ignorar. Porque no poder e na política, no fundo, não há cachorro sem dono.