Nunca diga “desta água não mais beberei”. A vida tem dessas ironias silenciosas: hoje você vira o rosto com desdém, amanhã pode estar com sede. Já vi gente jurar distância de caminhos que, pouco tempo depois, percorreu com pressa — não por gosto, mas por necessidade. O mundo gira sem pedir licença, e com ele giram as certezas. O que parece definitivo num dia, no outro se mostra frágil. Por isso, todo cuidado é pouco com promessas rígidas: a necessidade, essa velha conhecida, tem o estranho poder de dobrar convicções. Melhor falar baixo, deixar portas entreabertas e reconhecer — com humildade — que a vida, às vezes, nos faz beber exatamente da fonte que juramos evitar.