Há encontros que dispensam apresentações. Basta um olhar, um silêncio atravessado e, às vezes, uma frase curta para revelar tudo aquilo que as aparências tentam esconder. Foi assim na descida de um palanque que, aos olhos de quem estava de fora, parecia reunir aliados. Mas, de perto, a cena revelava outra realidade: o espaço estava apinhado de concorrentes, cada qual carregando suas próprias ambições, seus cálculos e, quem sabe, suas desconfianças. Entre os presentes, dois chamavam atenção. Considerados ferrenhos adversários na disputa eleitoral pelo mesmo cargo, estavam ali, próximos o suficiente para trocar um olhar, mas distantes demais para qualquer gesto de cordialidade. Por alguns segundos, nada disseram. Apenas se olharam. Naquele breve instante, talvez tenham passado pela cabeça de ambos as acusações, as mágoas, as disputas, os discursos inflamados e tudo aquilo que costuma acompanhar uma eleição quando a política deixa de ser debate e passa a ser duelo. Então, repentinamente, um deles virou-se para o outro e, destilando ódio, disparou:— Só quero falar contigo após as eleições. A frase poderia parecer banal. Não era. Havia nela a confissão involuntária de que, naquele momento, qualquer conversa seria inútil. Não havia espaço para argumentos, conciliação ou sequer para a velha e conveniente cordialidade política. Havia apenas a espera pelo resultado das urnas — como se a eleição fosse uma espécie de tribunal capaz de decidir quem teria o direito de falar por último. Eis o curioso da política: às vezes, os que se apresentam como aliados num palanque são apenas companheiros circunstanciais de fotografia. Dividem o mesmo espaço, acenam para o mesmo público e sorriem para as mesmas câmeras. Mas, quando descem do palanque, a máscara pode cair junto com os discursos. Talvez seja esse o verdadeiro significado de “Quando os irracionais se encontram”. Não se trata de animais, evidentemente. Os irracionais, neste caso, são aqueles que deixam a razão do lado de fora quando entram na disputa pelo poder. São os que transformam adversários em inimigos, divergências em ódio e política em uma guerra pessoal. E, quando dois deles se encontram, não há diálogo. Há apenas olhares. E a promessa de que, depois das eleições, finalmente haverá muito o que dizer. Ou talvez não. Porque, na política, o amanhã costuma ser tão imprevisível quanto a memória de quem hoje jura que jamais esquecerá.