“PRA BOI DORMIR”

Não comovem muito as explicações de certos empresários que, em tom de conversa de botequim, contam como saíram da pobreza, venceram todas as dificuldades, dormiram em colchão de palha e, graças a uma força de vontade de fazer inveja a um tanque de guerra, chegaram ao pedestal da riqueza. A narrativa costuma vir completa: infância humilde, primeiro negócio com três moedas, muito trabalho, acordar cedo, dormir tarde e, sobretudo, uma fé inabalável no empreendedorismo. Em algum momento, porém, a história dá uma pequena escorregada: aparece um financiamento camarada, uma concessão, um contrato público, uma generosa desoneração, uma sociedade providencial ou aquele telefonema amigo de alguém que conhece alguém. É aí que entra o célebre “empurrãozinho”. Porque, convenhamos, no Brasil o sujeito pode até começar vendendo pastel na esquina e terminar dono de um império. Mas, para chegar ao clube dos bilionários, é recomendável que, em algum ponto da caminhada, o Estado tenha passado por perto — de preferência carregando uma caneta, um cheque ou um decreto. As raríssimas exceções existem, naturalmente. Também existe quem ganhe na loteria. E há quem receba uma herança tão robusta que o único esforço exigido seja comparecer ao cartório e assinar alguns papéis. O curioso é que, depois da escalada, o passado costuma ser recontado com uma generosidade impressionante. O empresário lembra do primeiro funcionário, mas esquece o primeiro incentivo. Recorda a madrugada de trabalho, mas não menciona a taxa de juros amiga. Fala da coragem de investir, mas deixa discretamente fora da fotografia o padrinho político. E assim nasce a lenda do homem que venceu sozinho. Sozinho, não. Talvez com uma ajudinha. No Brasil, até elevador social costuma precisar de alguém apertando o botão. O resto é pavulagem.

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