Embora jocoso, é possível imaginar que, ao chegar ao Brasil, Pedro Álvares Cabral tenha avistado, entre a mata exuberante e o mar de águas tranquilas, uma grande faixa anunciando: “O Brasil precisa ser passado a limpo”. Talvez fosse uma previsão histórica. Afinal, séculos depois, a frase continua aparecendo sempre que o país mergulha em alguma crise. Muda o escândalo, mudam os personagens, mudam os discursos, mas a velha expressão permanece firme, como placa de estrada que ninguém se dá ao trabalho de retirar. O curioso é que todos parecem concordar com ela. Políticos, empresários, autoridades, cidadãos comuns, especialistas de ocasião e comentaristas de botequim. Cada um aponta o dedo para o outro e sentencia: “É preciso passar o Brasil a limpo.” Mas talvez esteja aí a nossa maior sujeira. O que precisa ser passado a limpo não é apenas a política, a economia, as instituições ou os governos. É a HIPOCRISIA, essa velha conhecida que circula livremente por todos os segmentos da sociedade brasileira. Condenamos no outro aquilo que toleramos em nós mesmos. Exigimos honestidade quando nos convém, justiça quando somos prejudicados e ética desde que ela não atrapalhe nossos pequenos interesses. Talvez o Brasil não precise apenas de uma faxina. Precise de uma assepsia profunda, daquelas que começam pelo lugar mais difícil de limpar: a consciência de cada um de nós. Porque, se Cabral realmente tivesse visto aquela faixa, talvez hoje ela ainda estivesse lá. Só teria mudado a mensagem: “O Brasil precisa ser passado a limpo. Comecemos por nós.”