O UNGIDO

Há histórias que parecem ter saído diretamente das páginas da mitologia grega. Uma delas é essa de que alguém seria “ungido” para assumir um cargo público brasileiro, como se uma divindade tivesse descido do Olimpo para escolher seu representante entre os mortais. No verdadeiro cristianismo, a unção não é um salvo-conduto para o poder, muito menos uma espécie de certificado divino de autoridade política. Jesus não ensinou que governantes deveriam ser escolhidos por uma casta de ungidos, nem que determinado candidato carregaria consigo uma espécie de mandato celestial. Por isso, quando a fé é usada para apresentar alguém como “o escolhido” para ocupar um cargo público, a cena parece menos bíblica e mais mitológica. Só falta o trovão no céu, a águia de Zeus e uma voz anunciando: “Este é o meu ungido”. Talvez seja melhor deixar os deuses no Olimpo e a política nas urnas. Porque, numa democracia, autoridade não vem de uma suposta unção divina: vem do voto, das leis e, sobretudo, da responsabilidade diante do povo.

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