Chega a época das eleições e, com ela, surge uma curiosa profissão temporária: o analista jurídico de ocasião. De repente, todo mundo entende de decisão judicial. Quem ontem mal sabia distinguir uma liminar de uma sentença agora discorre, com a segurança de um jurista de longa estrada, sobre competência, recursos, jurisprudência e até interpretação constitucional. Uns leem a decisão procurando razão. Outros, procurando munição. E há os que nem leem: apenas escolhem de que lado está a brasa e tratam de puxá-la para sua sardinha. O problema não é ter opinião. Opinião todos temos. O problema é transformar preferência política em argumento jurídico — e argumento jurídico em verdade absoluta. No calor da eleição, a toga vira palanque, a lei vira torcida e cada decisão passa a ter dois pesos: um, quando favorece os nossos; outro, quando atinge os outros. Talvez fosse bom lembrar que decisão judicial não deveria precisar de torcida organizada. Precisa, antes de tudo, ser lida, compreendida e criticada com conhecimento de causa. Porque, em tempos eleitorais, até quem não é rábula parece especialista. E a sardinha, coitada, nunca esteve tão disputada.