EM NOME DE QUEM OU DE QUÊ?

Em nome de Deus já se fez muita patifaria. A frase, dita pelo ministro Gilmar Mendes durante uma discussão no plenário do Supremo Tribunal Federal, atravessa a sessão e parece ganhar vida própria. Não é apenas uma provocação de momento. É uma janela para a história — essa velha senhora que insiste em nos lembrar que a fé, quando colocada a serviço da disputa pelo poder, pode deixar de ser consolo para se transformar em justificativa. Ao longo dos séculos, homens ergueram espadas, atravessaram oceanos, conquistaram territórios e enfrentaram outros homens carregando estandartes religiosos. Muitas vezes, a linguagem de Deus serviu para dar aparência de missão ao que também era interesse, ambição ou domínio. É preciso separar, entretanto, a religião de seus usos políticos. A fé pertence ao universo íntimo de milhões de pessoas e, para muitos, representa esperança, solidariedade e sentido. O problema começa quando alguém transforma sua própria certeza religiosa em autorização para impor regras, conquistar poder ou negar ao outro o direito de pensar diferente. Talvez seja essa a advertência escondida naquela frase no plenário: Deus pode ser invocado para iluminar consciências, mas também já foi invocado para justificar ações humanas bastante obscuras. A história está cheia de exemplos. E talvez a maior lição seja justamente esta: quando alguém diz agir em nome de Deus, ainda devemos perguntar — em nome de quê, exatamente, estão agindo?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PUBLICIDADE

“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

Joseph Pulitzer

[SIMPLE_POLL id="492"]
OUTRAS NOTÍCIAS

Desenvolvido Por
Belém Sistemas
(91) 98079-5456