O PODER E A RELIGIÃO

Diz um internauta, numa dessas frases que parecem simples, mas carregam séculos de história: líder religioso não deveria se deixar enredar pelos fios do poder terreno e da política partidária. Se professa o cristianismo, talvez valha a pena olhar para os Evangelhos — e lembrar de Caifás. Caifás não era um personagem qualquer. Sumo sacerdote e uma das principais figuras do Sinédrio, estava no centro do poder religioso de seu tempo. Foi nesse ambiente, marcado também pelas delicadas relações com a autoridade romana, que o julgamento de Jesus tomou forma. Ao final, Jesus foi entregue às autoridades romanas e crucificado. A história, porém, não precisa ser repetida para continuar ensinando. Há sempre uma fronteira delicada entre a fé que orienta a consciência e o poder que disputa espaços, influência e lealdades. Quando o púlpito se aproxima demais do palanque, quando a autoridade espiritual passa a se confundir com autoridade política, surge uma pergunta incômoda: onde termina o serviço religioso e começa a busca pelo poder terreno? Não se trata de imaginar que homens e mulheres de fé devam viver alheios à sociedade. A fé também se manifesta na defesa de princípios, na preocupação com os pobres, na justiça, na solidariedade e na vida pública. A questão é outra: que preço uma religião paga quando sua mensagem fica dependente das conveniências de um grupo político? Talvez a lembrança de Caifás seja menos uma acusação contra pessoas de hoje e mais um convite à prudência. O poder religioso, quando se mistura indistintamente ao poder político, pode perder a capacidade de dizer “não” justamente quando deveria dizê-lo. Entre o altar e o palácio sempre haverá uma distância saudável a preservar. Não porque a fé deva fugir do mundo, mas porque, para continuar sendo voz de consciência, ela precisa conservar a liberdade de falar ao mundo — inclusive contra aqueles que ocupam o poder.

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