A EMENDA E O SONETO

Dois internautas conversavam sobre um assunto que, de tão antigo, parecia não ter idade: a imprensa e a maneira como as pessoas acreditavam nas notícias. — Houve um tempo — dizia um deles — em que praticamente só havia a imprensa. Jornal, rádio, televisão… Era dali que vinha a informação. E, quando uma notícia aparecia publicada, quem estava do outro lado tinha poucas possibilidades de contestá-la. Se estava no jornal, ganhava quase imediatamente o selo de verdade. O outro, mais otimista com os novos tempos, entrou na conversa: — Mas isso mudou. Com a internet, qualquer pessoa pode contestar, comparar informações, apresentar outro ponto de vista. A notícia deixou de ser uma via de mão única. O primeiro pensou por alguns segundos e respondeu: — A emenda ficou pior que o soneto. — Como assim? — Antes, tínhamos poucos donos da informação. Agora temos milhões. A internet abriu espaço para o debate, é verdade. Mas também abriu as portas para a mentira, para o boato e para as chamadas fake news. Qualquer pessoa pode publicar alguma coisa e, em poucos minutos, aquilo pode alcançar milhares de outras pessoas. O segundo não desistiu: — Mas agora também podemos verificar. Podemos procurar outras fontes, comparar versões, questionar o que foi publicado. — Podemos — concordou o primeiro. — Mas quantos fazem isso? A conversa parou por um instante. Talvez nenhum dos dois estivesse completamente errado. A velha imprensa tinha seus limites, seus interesses e seus erros. A internet trouxe uma possibilidade extraordinária: ninguém precisa mais aceitar uma informação sem poder questioná-la. Mas trouxe também uma nova responsabilidade: distinguir informação de opinião, fato de boato, notícia de invenção. No passado, talvez o problema fosse acreditar demais em poucos. Hoje, talvez seja acreditar em qualquer um. E foi aí que os dois perceberam que a pergunta não era exatamente quem tinha razão. A questão era outra: se antes faltavam vozes para contestar, agora talvez sobrem vozes — e falte ouvido para saber em quais acreditar.

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“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

Joseph Pulitzer

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