A MENTIRA REPETIDA NO NAZISMO

Há mentiras que, de tanto serem repetidas, começam a vestir a roupa da verdade. Não porque tenham adquirido fundamento, tampouco porque resistam ao confronto com os fatos, mas porque a repetição, quando bem calculada, tem o poder de anestesiar a dúvida e transformar o absurdo em algo familiar. E aquilo que se torna familiar, para muitos, acaba parecendo verdadeiro. A propaganda nazista compreendeu muito bem a força desse mecanismo. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, tornou-se associado à ideia de que a repetição sistemática poderia moldar a percepção coletiva e servir aos interesses de um regime totalitário. Mais do que informar, a propaganda pretendia fabricar consensos, eleger inimigos e converter preconceitos em certezas. A mentira, nesse contexto, não era um deslize: era um instrumento de poder. O mais inquietante é perceber que, décadas depois, a lógica da manipulação continua viva, embora adaptada aos novos tempos. No Brasil, a política parece ter incorporado, em diferentes setores, a mesma disposição para substituir o debate pela insistência, os argumentos pelos slogans e os fatos pelas versões que melhor atendem às conveniências de cada grupo. Basta observar como determinadas narrativas circulam. Uma acusação é lançada sem provas consistentes; depois, repetida em discursos, vídeos, mensagens e publicações nas redes sociais. A cada nova reprodução, perde-se a origem da informação, desaparece a dúvida sobre sua veracidade e fortalece-se a impressão de que, se tantos dizem a mesma coisa, alguma verdade deve existir ali. A mentira ganha capilaridade, a suspeita vira convicção e a convicção passa a orientar escolhas políticas. Nesse ambiente, pouco importa se a informação foi desmentida. A correção raramente alcança a mesma velocidade da falsidade, e o esclarecimento dificilmente encontra o mesmo entusiasmo da acusação. Afinal, a mentira costuma chegar acompanhada de indignação, medo ou ressentimento — sentimentos muito mais eficientes para mobilizar multidões do que a ponderação dos fatos. É claro que o Brasil não é a Alemanha nazista, e seria historicamente irresponsável ignorar as diferenças entre os contextos. Mas reconhecer essas diferenças não nos impede de identificar mecanismos de propaganda que, quando empregados para manipular a opinião pública, ameaçam igualmente a qualidade da vida democrática. O problema não está apenas em quem inventa a mentira, mas também em quem a compartilha sem verificar, em quem a transforma em bandeira e em quem prefere uma falsidade conveniente a uma verdade incômoda. A responsabilidade se distribui entre os que fabricam narrativas, os que lucram com sua disseminação e os que, por conveniência ideológica, dispensam qualquer compromisso com os fatos. A política deveria ser o espaço do confronto de ideias, da divergência legítima e da busca por soluções coletivas. Quando se converte em uma disputa para ver quem consegue repetir a versão mais convincente, mesmo que falsa, a sociedade deixa de discutir caminhos e passa a disputar realidades paralelas. Talvez o maior perigo não seja acreditar em uma mentira, mas perder a capacidade de reconhecê-la. Quando os fatos deixam de ser o ponto de partida do debate e passam a ser escolhidos conforme as preferências de cada um, a verdade torna-se refém das conveniências políticas. E uma democracia não adoece apenas quando lhe retiram a liberdade. Ela também se enfraquece quando seus cidadãos já não conseguem distinguir informação de propaganda, crítica de difamação, opinião de fato. No fim das contas, a mentira repetida pode até conquistar a aparência de verdade. O que ela jamais consegue, por si só, é transformar falsidade em realidade. Mas, se repetida o suficiente e aceita sem questionamento, pode fazer algo talvez ainda mais perigoso: levar uma sociedade inteira a agir como se acreditasse nela. E é justamente aí que reside o alerta: quando a mentira se torna ferramenta de poder e a dúvida passa a ser tratada como fraqueza, não é apenas a verdade que está em risco – é a própria democracia.

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