Terminadas as eleições, começa um novo espetáculo, talvez o mais divertido da política: a formação do governo. É quando antigos adversários descobrem afinidades até então desconhecidas, velhos desafetos passam a se tratar como amigos de infância e alguns derrotados percebem, subitamente, que sempre estiveram do lado certo — só não tinham encontrado a porta de entrada. Mas a festa tem seu preço. A cada cargo anunciado, um novo aliado se aproxima e outro se afasta. O adversário de ontem chega sorridente, enquanto o companheiro de tantas batalhas sai de cara amarrada, perguntando-se para que serviram os discursos de fidelidade, as caminhadas debaixo de sol e as noites maldormidas na campanha. É a curiosa matemática do poder: ganha-se um apoio, perde-se uma amizade; conquista-se um secretário, perde-se um cabo eleitoral; amplia-se a base e diminui-se a sala dos que se consideravam donos da vitória. No fundo, a eleição escolhe o governo, mas a distribuição dos cargos escolhe quem continuará amigo. Afinal, na política, a gratidão costuma ser um sentimento nobre, desde que não atrapalhe uma nomeação. E há aliados que suportam qualquer derrota, menos a vitória dos outros!