REFÉM DE SUAS ESCOLHAS

No começo, sua assinatura valia mais do que palavra dada em mesa de bar. Era ele quem decidia, quem aprovava, quem encerrava conversas com um simples “deixe comigo”. Hoje, porém, o gesto de segurar a caneta vinha carregado de um peso estranho — não o da responsabilidade, mas o do receio. Os antigos parceiros, aqueles das decisões rápidas e dos atalhos convenientes, continuavam por perto. Não por lealdade, como ele gostava de imaginar no passado, mas por cálculo. Sabiam demais. Guardavam fragmentos de conversas, registros oportunos, silêncios comprados. Cada um deles carregava, invisível, um pequeno dossiê. E ele sabia disso. Por isso, já não cortava caminhos — era conduzido por eles. Cada reunião parecia um jogo de espelhos, onde qualquer movimento podia refletir algo indesejado. Evitava contrariar, adiava decisões, concordava mais do que gostaria. Não por estratégia, mas por medo. O poder descobriu tarde demais, não se perde de uma vez. Ele vai se desfazendo aos poucos, escorrendo pelas brechas que a própria conveniência abriu. E quando se percebe, já não resta autoridade — apenas a aparência dela. Sentado à mesa, cercado de vozes que um dia ecoaram como apoio, ele finalmente entendeu: não era mais o gestor das decisões. Era o refém das próprias escolhas.

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