‘O SORRISO DO LAGARTO’ NAS CONVENÇÕES

As fotografias das recentes convenções partidárias parecem ter sido cuidadosamente ensaiadas. Sorrisos largos, abraços coreografados, aplausos sincronizados e olhares que procuram transmitir confiança. Tudo muito limpo, muito iluminado, muito convincente. A política contemporânea, afinal, aprendeu a posar para as redes sociais antes mesmo de encarar a realidade. Mas há fotografias que contam mais pelo que escondem do que pelo que revelam. Atrás do enquadramento perfeito, permanecem as disputas silenciosas, os acordos de bastidores, as conveniências e as ambições que jamais caberiam em uma legenda otimista. O retrato oficial é apenas a superfície; a história verdadeira costuma caminhar pelos corredores, longe das câmeras. É difícil olhar essas imagens sem lembrar de O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro. No romance — e na marcante adaptação televisiva —, o sorriso do lagarto nunca representa ingenuidade. Ao contrário, simboliza o mal disfarçado de civilidade, a ambição que veste elegância e a degradação moral de uma elite que acredita estar acima de qualquer limite. O sorriso não tranquiliza; inquieta. Não aproxima; alerta. Talvez seja essa a metáfora que melhor dialogue com certas imagens da política atual. Não porque cada rosto fotografado carregue, individualmente, tal significado, mas porque o espetáculo da aparência frequentemente tenta substituir a consistência das ideias. O marketing aperfeiçoa gestos, ilumina palcos e seleciona os melhores ângulos, enquanto questões essenciais permanecem fora do foco. Há um tempo em que bastava o discurso. Hoje, é preciso produzir a fotografia perfeita, o vídeo impecável, o instante viral. A imagem passou a disputar espaço com a própria realidade, e, não raro, vence a disputa. O eleitor é convidado a consumir emoções cuidadosamente produzidas, como se a política pudesse ser resumida a um álbum de boas intenções. No entanto, a história ensina que nenhum filtro digital consegue apagar os efeitos das decisões tomadas depois que as luzes do palco se apagam. Sorrisos envelhecem rapidamente; escolhas permanecem. Talvez por isso o “sorriso do lagarto” continue tão atual. Ele nos recorda que a aparência pode seduzir, mas raramente basta para revelar o caráter. Entre a pose e a prática existe um abismo que nenhuma fotografia consegue esconder para sempre.

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