Sem dúvidas, a Justiça deve ser uma das grandes garantidoras da democracia. É justamente por isso que sua força não pode depender de conveniências, amizades ou alianças circunstanciais. Quando se abre a chamada “caixa de Pandora”, é preciso ter coragem para lidar com aquilo que dela emerge. Não parece razoável escancarar verdades, levantar suspeitas, provocar instituições e mobilizar a sociedade para, logo depois, fechar a tampa às pressas quando o conteúdo ameaça alcançar amigos, aliados ou interesses próximos. A democracia não combina com dois pesos e duas medidas. A Justiça precisa ser firme quando a verdade incomoda e ainda mais firme quando ela atinge os que estão ao nosso lado. Afinal, não há justiça verdadeira quando a régua muda conforme o nome de quem está sendo julgado. Talvez o maior perigo não esteja apenas naquilo que existe dentro da caixa de Pandora, mas na tentação de abri-la seletivamente: revelá-la quando serve aos nossos interesses e escondê-la quando deixa de ser conveniente. Em uma democracia madura, a Justiça não deveria ter amigos nem inimigos. Deveria ter princípios. Porque, quando a tampa é fechada para proteger uns poucos, quem acaba ficando do lado de fora é a própria confiança da sociedade nas instituições. E sem confiança, nenhuma democracia permanece de pé por muito tempo.