Na política brasileira, o tempo passa, os discursos mudam, mas certos interesses permanecem intactos. Aqueles que ontem trocavam ofensas e acusações, hoje podem ser vistos distribuindo elogios e sorrisos. Os antigos adversários transformam-se em aliados, e as palavras duras cedem lugar à bajulação, conforme muda o ocupante do poder. Assim funciona a politicagem, tão diferente da verdadeira política, que deveria ser guiada por princípios, ideias e compromisso com o interesse público. Os aproveitadores de ontem continuam presentes hoje; mudam os personagens, o conteúdo dos discursos e as circunstâncias, mas a conveniência permanece. O curioso é observar como antigos alvos de críticas ferozes se tornam, de repente, merecedores de aplausos e reverências. Não necessariamente porque mudaram, mas porque mudou a posição que ocupam no tabuleiro do poder. Nesse cenário, a inteligência, que exige coerência e coragem para sustentar convicções, acaba cedendo espaço à esperteza, que ensina a dizer o que cada governante deseja ouvir. Para cada governo de plantão, um discurso sob medida; para cada ocasião, uma nova versão das próprias convicções. Na politicagem, a palavra não serve para defender princípios, mas para conquistar vantagens. E, quando o interesse pessoal fala mais alto que a consciência, a fidelidade deixa de ser às ideias e passa a ser ao poder.