Há um tipo curioso de personagem que habita a política brasileira — aquele que, quando elogiado, é herói do povo; mas quando denunciado, vira mártir da injustiça. São os “perseguidos do poder”, criaturas que, diante de qualquer acusação, vestem o manto da vítima e sobem ao palco da autopiedade. Basta surgir uma denúncia — superfaturamento, desvio, rachadinha, contrato suspeito — e o roteiro se repete. A voz embarga, o olhar se enche de falsa indignação e vem o discurso pronto: estão tentando me derrubar porque eu trabalho demais pelo povo. É um clássico. O sujeito não se defende com provas, mas com frases de efeito e lágrimas bem ensaiadas. A tática é antiga e eficiente. No lugar de explicar as contas, mostram cicatrizes políticas. No lugar de abrir documentos, abrem o peito, dizendo-se vítimas de um “sistema cruel” que não aceita sua honestidade — justo eles, que há anos se alimentam do próprio sistema. O curioso é que, quando o mesmo político estava no topo, usando o cargo como escudo e o poder como espada, a palavra “perseguição” não fazia parte do seu vocabulário. Era o tempo das fotos sorridentes, das inaugurações e dos discursos de moralidade. Mas basta o vento mudar de direção, e o santo desce do altar direto para a cruz da autoproteção. No fundo, essa mania de se fazer de perseguido é uma forma de continuar mandando, mesmo quando se deveria responder. É a tentativa de transformar culpa em compaixão, e crime em causa política. O problema é que, nesse teatro, o público já aprendeu a reconhecer os atores — e as lágrimas já não convencem mais.