FABRICANDO PARA VALORIZAR

Há um tipo de fábrica que não aparece nos mapas industriais. Não produz aço, cimento ou alimentos. Sua matéria-prima é a conveniência, e seu produto mais lucrativo são as narrativas. Na administração pública, por exemplo, existe a velha conhecida “emergência”. Nem sempre nasce de uma enchente, de uma epidemia ou de uma tragédia. Algumas parecem surgir justamente quando o calendário aperta e a licitação atrapalha. A urgência fabricada transforma o excepcional em rotina e o improviso em método. O que deveria ser exceção passa a ser justificativa. Na política, especialmente em tempos de eleições, a linha de produção trabalha em ritmo acelerado. Fabricam-se impasses, divergências estratégicas e decisões que, muitas vezes, valem mais pelo efeito de mercado do que pelo conteúdo. O objetivo não é apenas decidir, mas elevar o preço da decisão. Quanto maior a expectativa, maior o poder de negociação. É nesse ambiente que notícias ganham destaque anunciando que “a orientação da Convenção Geral das Assembleias de Deus tende a contrariar articulações locais e reforça o peso eleitoral do segmento”. Independentemente do desfecho, o anúncio produz um efeito imediato: amplia a percepção de que determinado apoio possui elevado valor político. A notícia deixa de ser apenas informação e passa a integrar uma estratégia de valorização do ativo eleitoral. Assim, cria-se um marketing fabricado, em que o verdadeiro produto não é a decisão, mas a expectativa sobre ela. A disputa deixa de ocorrer apenas nas urnas e passa a acontecer também no mercado simbólico das influências, onde apoios são cotados, alianças são precificadas e cada gesto pode aumentar o valor das transações partidárias. Talvez a maior habilidade da política contemporânea não seja fabricar consensos, mas  fabricar circunstâncias. E, quando a circunstância é bem construída, a emergência parece inevitável, a decisão parece histórica e o preço da negociação sobe naturalmente. No fim das contas, a fábrica continua funcionando. Muda o cenário, mudam os personagens, mas a linha de produção permanece a mesma: fabricar urgências, fabricar expectativas e transformar conveniências em acontecimentos.

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“com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil com ela mesma”

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