E a história continua, quase sempre com os mesmos personagens, ainda que mudem os figurinos, os discursos e, principalmente, as justificativas. Na conquista do poder, há promessas, gestos de grandeza e palavras cuidadosamente escolhidas. Fala-se em princípios, em justiça, em compromisso com o povo. O poder, porém, tem uma curiosa capacidade de alterar a memória de quem o alcança. Aos poucos, aquilo que antes parecia inaceitável passa a ser apenas “necessário”. O que ontem provocava indignação hoje recebe uma explicação. E o que seria impensável acaba sendo tratado como rotina. É uma espécie de amnésia parcial: não se esquece de tudo, apenas daquilo que incomoda. Esquecem-se as antigas críticas, as promessas feitas, os limites que se jurava respeitar. A memória torna-se seletiva, conveniente, quase um departamento particular da consciência. Na manutenção do poder, o fenômeno se aprofunda. Já não basta conquistar; é preciso permanecer. E, para permanecer, alguns passam a considerar os escrúpulos um luxo, a coerência uma ingenuidade e os princípios uma ferramenta que pode ser guardada na gaveta quando deixam de ser úteis. Mandam-se os escrúpulos às favas, portanto, em nome de uma causa maior — quase sempre a própria sobrevivência política. E há sempre uma boa justificativa disponível: o adversário faria pior, o momento exige firmeza, as circunstâncias são excepcionais, não havia alternativa. Assim, de exceção em exceção, o extraordinário vira método e o método vira hábito. Talvez seja essa a ironia mais persistente da história: muitos chegam ao poder prometendo mudar o jogo e, depois de algum tempo, descobrem que o jogo é confortável demais para ser mudado. E a história continua. Mudam os nomes, as bandeiras, os slogans e as alianças. Mas permanece a velha tentação de confundir poder com razão e sobrevivência com legitimidade. No fim, a amnésia pode até ser parcial, mas a história tem memória. E costuma cobrar, cedo ou tarde, aquilo que os poderosos preferiram esquecer.