Parodiando o saudoso Nelson Rodrigues, já em outro plano, talvez se pudesse dizer: é melhor trair logo do que ser traído mais adiante. Na política, essa máxima sempre encontrou terreno fértil. Havia — e ainda há — figuras da politicagem que se julgavam donas da malandragem, especialistas no bote certeiro, daqueles que esperam pacientemente a distração do adversário para atacar. O curioso é que, nesse jogo de espertezas, quase ninguém se considera traidor. Todos se enxergam como estrategistas. E, quando a traição finalmente chega, vem acompanhada de uma desculpa elegante, um sorriso de canto de boca e a velha conversa de que “foi preciso agir”. No fim, como diria Nelson, a vida como ela é : quem passa o tempo preparando o bote pode acabar descobrindo que, na política, sempre existe alguém esperando atrás da moita — com o bote pronto e a mesma dose de malandragem.