DIFERENÇA DE RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE NA CAMPANHA ELEITORAL

Há candidaturas que, em determinada altura da campanha, descobrem subitamente o caminho da fé. É quase um fenômeno meteorológico: aproxima-se a eleição, formam-se nuvens de santidade e, quando menos se espera, aparece o candidato posando ao lado de uma igreja, de preferência com um sorriso tão devoto quanto estrategicamente ensaiado. Nada contra a religião. Muito menos contra quem encontra nela sentido, consolo, comunidade ou esperança. O problema começa quando a fé vira cenário de campanha e a religiosidade — essa coisa mais íntima, cotidiana e silenciosa — é confundida com uma fotografia bem enquadrada. Talvez algumas candidaturas devessem fazer uma pequena lição de casa antes de se ligarem para o lado das igrejas: entender a diferença entre religião e religiosidade. Religião pode ter templo, doutrina, rito, autoridade, tradição, comunidade. Religiosidade é algo mais difícil de fotografar. Está no sujeito que pratica o que prega quando ninguém está olhando. Está na solidariedade que não rende manchete, na honestidade que não precisa de testemunha e, sobretudo, na capacidade de respeitar quem acredita diferente. Mas eleição tem dessas coisas. De repente, quem nunca foi visto entrando pela porta da frente de um templo surge na primeira fila, com a expressão de quem acabou de receber uma revelação — e, curiosamente, descobriu que ela coincide perfeitamente com o calendário eleitoral. É quando a política corre o risco de transformar a fé em adereço e o templo em palanque. E aí acontece uma curiosa inversão: em vez de a religião questionar o poder, é o poder que tenta usar a religião como selo de autenticidade. Talvez valesse lembrar que religiosidade não é fantasia de campanha. Não se veste no sábado para a fotografia de domingo e se guarda na gaveta na segunda-feira. Fé, quando é fé, costuma sobreviver sem assessoria de imprensa. E talvez seja justamente essa a diferença que algumas candidaturas ainda precisem aprender: uma coisa é procurar uma igreja. Outra, bem diferente, é encontrar algum sentido no que significa ser humano diante dos outros.

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